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05 fevereiro, 2008

Obviamente, censurava-o

Se nunca leu uma crítica literária que começa por pesar o livro em análise, não perca mais tempo. O Expresso publicou no seu site a "crítica" (as aspas são minhas) ao mais recente livro de Miguel Sousa Tavares (via corta-fitas). O caso mereceu alguma atenção porque a direcção do jornal recusou a publicação deste mesmo texto no jornal, e a autora, Dóris Graça Dias, argumentava ter sido censurada pelo facto de Miguel Sousa Tavares também escrever no Expresso. O seu caso parece simpático, e propício às teorias da conspiração que tanto sucesso costumam fazer, mas não resiste a uma leitura do seu texto. É confrangedor. Nem a um aluno do 1.º ano da extinta Universidade Independente se perdoava um texto tão desconexo. Em nenhum momento se critica o livro de Miguel Sousa Tavares. Não li o "Rio das Flores", nem pretendo ler, mas não é preciso conhecer o livro para perceber que tudo o que motiva Dóris Graça Dias é a sua embirração com o sucesso editorial de Miguel Sousa Tavares. Não deixa de ser curioso, aliás, que a informação mais detalhada que nos transmite sobre a obra é a sua tiragem e peso.

Tudo o que MST disser sobre a sua própria escrita, o seu romance histórico é gratuito. Que o escreveu a pedido de muitas famílias, que passou três anos muito duros, quase dois a documentar-se e um fechado em casa a escrever, sem viajar: nada disto interessa a um leitor; nada disto interessa à literatura, diz Dóris Graça Dias. Não interessa à literatura, como não devia importar à critica literária. Que as declarações do autor, posteriores à publicação do livro, sirvam de instrumento epistemológico para a análise de uma obra literária diz mais sobre a qualidade da “critíca” do que sobre o “Rio das Flores”. O seu texto foi censurado? Sei lá. Censurável era publicá-lo.

04 fevereiro, 2008

Perseguição política é isto

O jornalista do New York Times que revelou o programa ilegal de escutas, autorizado por George Bush, foi intimado para revelar as fontes a que recorreu para escrever um capítulo do seu livro sobre o programa nuclear iraniano. Se não o fizer, será preso. Não é a primeira vez que um jornalista do Times é detido por se recusar a revelar as fontes de notícias que embaraçaram a administração Bush. Embora o caso não seja o mesmo, não há como negar que este processo é mais uma tentativa de perseguição política sobre a imprensa que ainda investiga o que se passa nos pouco recomendáveis bastidores da dupla Bush-Cheney.

31 janeiro, 2008

Media madness


Jon Stewart e o seu tema preferido: a “independência” das narrativas jornalísticas na política norte-americana. Um exercício que pode facilmente ser transposto para qualquer acto eleitoral, em qualquer parte do mundo. Por cá, basta recordar a influência que teve nas últimas presidenciais uma certa fotografia de Mário Soares na capa de um semanário.

24 janeiro, 2008

Pergunta quem paga


Das 2275 perguntas efectuadas aos candidatos presidenciais americanos nos cinco principais programas televisivos, apenas 24 estão relacionadas com as alterações climáticas.O aquecimento global apenas é referido por 3 vezes - tantas como as questões colocadas aos candidatos sobre ovnis e a vida noutros planetas! O balanço podia apenas ser revelador da forma como a imprensa se concentra cada vez mais em questões secundárias, o que é verdade, mas é bem mais revelador do que isso. Nos debates promovidos pela CNN/Youtube a omissão é total: as questões ambientais não existem. Uma lacuna que se compreende melhor quando se percebe que o principal patrocinador dos debates é o lobby das empresas de extracção de carvão. Tudo gente simpática que, no seu site, se orgulha de pretender gastar 35 milhões de dólares na campanha presidencial para melhorar a imagem pública das centrais eléctricas a carvão e apoiar os candidatos que se opõem a medidas legislativas para diminuir a emissão de CO2.

05 janeiro, 2008

Faltam onze meses para o Governo decidir quem é que fica com o novo canal televisivo

Fazendo uma festa com essa extraordinária proeza, o Governo garante que o aumento das pensões permite a manutenção do poder de compra a 1,6 milhões de reformados que vivem com menos de 400 euros por mês. Mais papista que o Papa, o Jornal de Notícias diz que "0 poder de compra perdido durante 2007 será, assim, compensado para 2,4 milhões de reformados".

04 janeiro, 2008

O tal canal


Portugal tem o mercado publicitário mais distorcido da Europa. Como em nenhum outro país, os anunciantes concentram o seu dinheiro na televisão (70% do volume de anúncios) e só não o fazem de uma forma mais intensa porque existem limitações legais que o impedem. A abertura do concurso para mais um canal de televisão em sinal aberto vai reforçar essa tendência, tornando ainda mais complicada a já debilitada situação financeira da maioria dos títulos da imprensa escrita. Uma comunicação social sem recursos e em permanente guerra para captar audiências e anunciantes não deveria interessar a ninguém, jornalistas incluídos. Conduz à degradação da informação. Ao fim do jornalismo de investigação. À diluição da autonomia dos seus profissionais. À diminuição da independência face ao poder politico e económico. À tabloidização de toda a imprensa, incluindo a de referência.

Abrir um canal televisivo em sinal aberto não é o mesmo que abrir uma padaria ou fábrica de curtumes. Tem profundas implicações no funcionamento do sistema democrático. A revolução não será televisionada, já diz a famosa canção dos anos 70, mas a verdade é que a democracia passa cada vez mais pela televisão. Para o bem e para o mal, a comunicação social é o principal mediador entre o sistema politico e a população. Não é por acaso que é nos liberais EUA que encontramos a legislação que mais entraves coloca à concentração da comunicação social. Por cá, contudo, o argumento liberal é que este licenciamento é um intrusão do Estado no normal funcionamento do mercado que deveria ter o direito de criar as estações em sinal aberto que entendesse. Dizem-no como se o licenciamento público das televisões generalistas fosse uma originalidade nacional e não ocorresse o mesmo em todos os outros países. Ao contrário do que argumentam, uma comunicação social sem meios de subsistência, e com profissionais cada vez mais precarizados, é que se torna refém de todo o tipo de interesses. A começar pelos mais fortes. Os do governo e os dos grandes grupos económicos.

29 dezembro, 2007

E para o ano, se não der muito trabalho, vejam lá se acabam com o desemprego e colocam a economia a crescer 5%

"Se o Sol não tivesse nascido a 16 de Setembro de 2006, o concurso da Ota já se teria realizado e a localização do novo aeroporto de Lisboa seria irreversível". É desta forma que este semanário dá à estampa uma das mais delirantes notas editoriais de que há memória. "Só por isto teria valido a pena lançar este jornal", asseveram. O "só" é para enganar, claro, que não há espaço para a modéstia na capa deste semanário que nos faz o favor de adiantar os temas em que "marcou a agenda" de 2007."O Sol trouxe mais, muito mais, à imprensa portuguesa e ao país". É uma pena terem parado por aqui, porque aqui chegados já só estamos à espera de encontrar sinais indesmentíveis do contributo decisivo do semanário para a excelência do último filme dos irmãos Coen, nos avanços na pesquisa com células estaminais e para a assinatura do Tratado de Lisboa. A desmesurada imagem que José António Saraiva tem de si próprio é responsável por algumas dos mais hilariantes editoriais e crónicas de que há memória na imprensa nacional. Mas, que consiga transportar as suas idiossincrasias pessoais de uma forma tão marcada para a primeira página de um jornal com alguns excelentes profissionais, sem que ninguém tema cobrir-se de ridículo, começa a ser um caso de estudo que merece ser seguido com atenção.

15 dezembro, 2007

Jornalismo de referência?












às vezes gostava de não ter de verificar a notícia duas vezes com a imprensa estrangeira. de vez em quando não me importava de confiar no que vem escrito. uma vez por outra gostava de ter a oportunidade de ler factos sem pensar em motivos ulteriores. para poder tirar as minhas próprias conclusões; manhosas, é certo, mas minhas. não era preciso ser sempre, só assim de vez em quando.

Jornalismo de referência? Dommage, não temos.

13 dezembro, 2007

E quem não salta não é português

Depois de incontáveis horas de directos televisivos, ficámos a saber o nome e os anos de serviço da guarda-freio da Carris que conduziu o eléctrico que transportou os chefes de Estado. Também nos informaram que, como é costume, Sarkozy contornou ao protocolo e que a ministra dos estrangeiros austríaca é mais alta do que Sócrates, “que até não é um homem pequeno”. Horas e horas de cobertura noticiosa sobre um tratado e conhecermos tudo à excepção do tratado. Não é de agora. Nunca houve cobertura jornalística sobre os assuntos europeus no nosso país. O que existe é a leitura acrítica das posições defendidas pelo Governo em exercício de funções, assumidas como comentário e análise jornalística. É uma visão ideia completamente disfuncional sobre os interesses do país.

O Miguel Vale de Almeida fez um curioso exercício e comparou a cobertura que a imprensa portuguesa e internacional fez da Cimeira Europa/África. O estrondoso sucesso entre portas é substituído pelas críticas à ausência de resultados práticos e ao insucesso das parcerias económicas. A União Europeia, e os temas internacionais, são analisados pela imprensa nacional com o mesmo distanciamento e espírito objectivo com que são feitos os comentários televisivos dos jogos da selecção nacional de futebol. Não deixa de ser irónico que seja precisamente num processo de integração à escala europeia que mais se faça sentir o sentimento patrioteiro comunicacional.

Compreende-se, por isso, a agressividade com que parte dos comentadores começam a reagir ao que, há bem pouco tempo, era um consenso nacional que juntava todos os partidos: a existência de um referendo para ratificar o Tratado. Como diz hoje Paulo Baldaia, num editorial no Jornal de Notícias (sem link), não pode haver referendo porque pode dar-se o caso do povo ir às "urnas cuspir na mão que lhe deu de comer" e colocar "todos os outros 26 países a marcar passo". A conclusão é lapidar. Votar "não" é colocar Portugal fora da União e fora da Europa. O volte face está consumado. Já não existe referendo ao Tratado. Existe um referendo à Europa. É a chantagem máxima, para a política mínima.

A normalidade segue dentro de momentos

Hoje é dia de festa. O Tratado tem o nome da capital do país. Os transportes em Lisboa são gratuitos e os museus têm as portas abertas sem cobrar bilhete. Os jornalistas, esses, meteram o dia de folga. Numa espantosa operação, os assessores de imprensa do governo tomaram conta da emissão das rádios e televisões.

12 dezembro, 2007

Intel inside

Já se sabe que as prendas de Natal mais desejadas são as que aparecem na televisão. Já se tornaram banais os autocolantes na caixa dos brinquedos a anunciar que é o boneco "anunciado na TV". Novidade, novidade é ver um gigante da informática, como a HP, a anunciar no seu site o computador do "saco do Expresso". Processador, programas instalados, anti-vírus? Nada disso. Se vem no saco do Expresso é porque é bom e é rápido. O marketing move-se mesmo de formas misteriosas.

07 dezembro, 2007

Tendências

O juramento de castidade é “o novo ritual das virgens americanas”. Quem o diz é a Sábado, na sua edição de quinta-feira, que dedica duas páginas aos “bailes da pureza”, a “última moda entre os cristão conservadores norte-americanos”. São mil e quinhentos bailes num país com mais de 300 milhões de habitantes. Manifestamente pouco para apresentar uma “tendência”. Depois, logo por azar, na véspera desta reportagem ficámos a saber que, pela primeira vez em 16 anos, a gravidez na adolescência cresceu nos EUA. Como subiram, também, os números das doenças sexualmente transmissíveis. São as consequências directas do fanatismo conservador de Bush e do desmantelamento das campanhas de prevenção, substituídas por idiotas e ineficazes campanhas de promoção da abstinência sexual.

É este o problema destas reportagens ligeiras que enchem edições inteiras de revistas como a Sábado. Apresentam-nos casos e tendências sem nenhuma articulação com a realidade. Tomam os salões de baile da alta burguesia como o retrato do mundo. A fechar a notícia, duas linhas referem um estudo das universidades de Columbia e Yale:”88% das jovens que juraram manter a castidade até ao casamento não o cumpriram”. A Sábado apresenta o juramento de castidade como uma “tendência”. Not so fast. A tendência é mesmo as jovens quebrarem o juramento. E a de algumas reportagens não terem nada a ver com o sensacionalismo do título.

16 novembro, 2007

Parem as máquinas...


...temos que entrar em directo para avisar que o Presidente da República, e Ramos Horta, vão jantar um flan de espargos, uma perdiz à convento de alcatra, um "papão" de ovos e fruta. Mais importante, Ramos Horta vai estar sentado entre Manuel Alegre e Maria Cavaco Silva. Ainda bem que o Santana não estava em estúdio.

06 novembro, 2007

"O debate"

Santana Lopes andou mais de uma semana a anunciar que se estava a preparar para a reedição dos seus debates com José Sócrates. Ontem, na TSF, falava da abertura de um “novo ciclo político” comparável ao de Cavaco Silva. A imprensa foi na onda. Os jornais da manhã anunciavam a coisa em tons épicos. A Sic Notícias fez um separador para a ocasião. O espectáculo estava montado, as galerias cheias, a Assembleia silenciosa. Só se esqueceram que não basta ter um actor para ter filme. É preciso que ele conheça o papel. Santana foi igual a Santana. Um flop. Tinha cinco minutos para questionar o primeiro-ministro. Perdeu-se a falar do seu tema preferido. Ele próprio. Nos escassos segundos que deixou para falar do Orçamento ninguém percebeu do que é que estava a falar. Ainda inventou uma qualquer figura regimental para tentar um remake. Outra vez o mesmo filme. Penoso e vazio.

Existe um mito que a imprensa acredita e que anda a “vender-nos” há anos. Santana Lopes é um bom orador e um adversário temível em debates. Nada mais errado. Santana Lopes só conhece um dossier. Dá para encher as páginas de jornais com mil e uma efabulações, mas não dá para mais nada. Depois, a imagem de estroina instável persegue-o. Para compensar a ligeireza da imagem, e assumir a pose de Estado, veste um fato que não é o seu. É um peixe fora de água. São os dias em que traz os óculos para falar de improviso. Nem sempre basta andar por aí, é preciso saber o que se faz. Só faltou Sócrates virar-se para Santana e dizer-lhe: “foi porreiro, pá”.

02 novembro, 2007

Diários de Bagdade: Blackwater


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Ahmed Abdullah continua a emitir de Bagdade:
"what is this, what is happening, is everyone killing us now? The Americans, the terrorists, the militias, the death squads and now even the people who call themselves security companies."

16 outubro, 2007

Onde é que esta gente tem a cabeça?

O Zig Zag é o programa infantil da RTP2. Como, para além de ter algumas boas séries de animação e desenhos animados, o canal público supostamente não tem publicidade, é o único programa televisivo que o meu filho vê de quando em quando. Há poucos minutos, imediatamente antes de começar a programação do fim de tarde, a RTP entendeu que não tinha melhor anúncio promocional para emitir que o do ultimo episódio da sexta série do 24. Não sei quem é que escolhe o horários das autopromoções, mas será que é assim tão difícil perceber que o Jack Bauer a disparar sobre tudo o que mexe será sempre uma das últimas imagens a passar antes de um programa destinado a crianças que, na sua maioria, ainda nem estão escola? Do que serve não ter anúncios, se, depois, falta o mínimo bom senso? Bem, onde é que está o mail do provedor da RTP?

08 outubro, 2007

Figurantes

Há 38 minutos que Rui Pereira e Paulo Portas estão a debater a (in)segurança no Prós e Contras. Ao seu lado, Bacelar Gouveia e Garcia Leandro parecem ser os únicos que ainda não se aperceberam que apenas foram convidados porque o cenário do programa precisa de 4 pessoas.

28 setembro, 2007

Serviço público

O Guardian tem vindo a republicar algumas das mais importantes entrevistas feitas pelo jornal durante o século XX, como as que fizeram a Nixon, Hitler, Francis Bacon, ou Marlon Brando por Truman Capote. Sobre esse extraordinário momento jornalístico, aliás, vale a pena ler o artigo de Andrew O´Hagan: Interviewing is not a democratic art. It is neither a display of equal merits nor a test of good character: it is, as Capote says, an art, as well as a one-sided record of a human interaction, one in which the author may appear only as it suits the story and vanish without guilt.

26 setembro, 2007

Tão doido que até dou por mim a concordar com Santana Lopes


A Sic Notícias esteve toda a tarde a anunciar a presença de Santana Lopes para comentar a crise no PSD. Poucos minutos depois do início da entrevista, interromperam a emissão para filmar a chegada de José Mourinho a Lisboa. O treinador mais famoso do mundo não falou com ninguém e desapareceu em segundos. De volta ao estúdio, depois de umas inanidades de um repórter que não tinha nada para dizer, Santana Lopes diz que não continua e que se vai embora. “Bem sei que Mourinho é mais importante que qualquer um de nós e que esta coisa da crise dos partidos e do sistema político não interessa a ninguém, mas não me parece correcto o que acabou de acontecer. Interromperam a emissão para nos informarem que Mourinho chegou num avião privado. Acho que este país está doido.” Agradeceu o convite e foi-se embora.