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10 fevereiro, 2008

Em nome de quem?

A edição desta semana do Programa Parlamento, transmitido ontem pela RTP2, juntou deputados do PS, PSD, PP e Bloco para discutirem o combate à corrupção, um tema rapidamente aproveitado por Nuno Melo (PP) e Helena Terra (PS) para efectuarem um comício contra o bastonário da Ordem dos Advogados. É justo que estes dois partidos não se revejam nas declarações de Marinho Pinto. Questão diferente, e totalmente inaceitável do ponto de vista da representação política, é que enviem deputados a um programa para falarem enquanto advogados. Com várias matizes, o argumento central foi sempre o mesmo: "Eu, como advogado, não me revejo no actual bastonário da Ordem". Só que ninguém os convidou como advogados, mas como deputados. Como o próprio nome indica, quem participa no programa Parlamento representa um grupo parlamentar, não é suposto estar lá em nome dos seus interesses particulares. O que se passou ontem contribui para o descrédito do Parlamento e torna pertinentes todas as dúvidas sobre a representatividade dos deputados. Respondem perante os eleitores ou perante os escritórios onde exercem?

Depois do episódio sucedido com Jorge Neto, advogado que participou activamente na OPA sobre a PT, e que aproveitou uma audição parlamentar ao presidente da CMVM para levantar várias questões sobre a OPA entretanto falhada, várias vozes se levantaram exigindo um regime de incompatibilidades mais rígido. Totalmente de acordo, mas antes de aí chegar talvez fosse mellhor começar pelo mais simples: resolver a confusão que vai na cabeça de alguns deputados, que parecem não entender onde acaba a sua profissão e começa o seu cargo político. É nessa sobreposição de interesses, muitas vezes conflituantes, que começa toda a promiscuidade entre os negócios e a política.

06 fevereiro, 2008

Então, bom Natal (principalmente porque é o último que passam por cá)

Este vídeo, como se pode ler na página do Serviço de Estrangeiros e Fronteiras, retrata a "Festa de Natal organizada pelo SEF na Unidade Habitacional de Santo António", o "espaço destinado a acolher cidadãos estrangeiros à espera de repatriamento". Bonitas palavras para classificar um centro de detenção para os imigrantes que vão ser expulsos do país. Com uma cara que varia entre o espanto e o enfado, própria de quem sabe que está à beira de ser recambiado para o país de onde tentou "dar o salto", os imigrantes (que se encontram detidos) são tratados pelo representante do Governo como "utentes". Assim mesmo. Utentes, como se estivessem num centro de saúde ou transporte público. Mas o melhor é mesmo a mensagem do padre presente, o qual insiste em lembrar a história de que Maria, mãe de Jesus, só chegou a Nazaré porque se foi recensear. Um motivo de orgulho para aqueles imigrantes sem papéis, está bom de ver. Mas a analogia não deixa de ser curiosa, permitindo-nos perceber que, fosse hoje, e não havia cristianismo. Sem documentos e passaporte, um qualquer burocrata teria enviado a peculiar progenitora de Jesus à precedência.

03 fevereiro, 2008

Workaolic II

Parece que o Departamento Central de Investigação e de Acção Penal (DCIAP) vai investigar os meandros da não devolução ao Estado do edifício onde funciona o Casino de Lisboa. Estranho é que o assunto tenha que ser investigado criminalmente. Num país normal, e com um governo normal, a primeira coisa que o partido socialista teria feito era revogar os despachos de Telmo Correia que não fossem simples actos de gestão – o que não é, manifestamente, o caso. Mas esta fúria legislativa, que se parece apossar dos governantes nos últimos instantes antes de correrem as cortinas do ministério, é uma história que vem de longe. Basta lembrar que o ruinoso contrato para a administração do Hospital Amadora-Sintra, cujas contas não são validadas vai para seis anos e que já custou ao Estado mais de 70 milhões de euros, foi assinado pelo ministro Arlindo Carvalho, do PSD, 9 dias depois da primeira vitória de António Guterres. Na altura, como agora, ninguém no Governo se lembrou de ver se o acordo defendia os interesses públicos e se acautelava mecanismos transparentes de controlo das despesas invocadas pela administração hospitalar. O resultado é o que se sabe. Sempre seria engraçado saber o que é que a actual ministra da Saúde pensa dessa omissão de Maria de Belém.

29 janeiro, 2008

Alguém se enganou no número de telefone

Há dois António Pinto Ribeiro. Um, é o ex-programador da Culturgest e um dos princiais especialistas em política da cultura. O outro é advogado, especializado na defesa dos direitos humanos. O Governo nomeou António Pinto Ribeiro para ministro da cultura. O advogado.

27 janeiro, 2008

Que país é este?


Mais vale uma ambulância que leve rapidamente o paciente a uma verdadeira urgência, do que serviços que não conseguem fazê-lo com a qualidade necessária. Tem sido esta, invariavelmente, a resposta de Correia de Campos a todos quantos todos quantos têm criticado o encerramento de 30 SAP´s e urgências hospitalares. É por isso que a transcrição da conversa entre o INEM e os bombeiros de Favaios e Alijó demonstra, de uma forma destrutiva, a falência do plano do Governo: não só não se preocupou em abrir novas urgências nos centros de saúde ainda a funcionar, como continua sem garantir a ambulância.

E fica ainda o retrato de um país esquecido, abandonado e onde as ambulâncias mais próximas ficam a 60 quilómetros e demoram 1h20 a chegar. Bem pode o Governo, seguindo a moda do momento, dizer que é um problema de comunicação. Pelo contrário, há muito que os portugueses perceberam de uma forma exemplar a política do Governo para a Saúde. Não há nenhum plano de requalificação, tudo o que existe e tem sido feito tem apenas um fim: conter as despesas do Estado. Agora, como já se viu ontem no Expresso, multiplicam-se os comentadores a exigir que a oposição apresente alternativas. Não se sabe bem porquê, visto que o SNS é uma das raros matérias em que os portugueses não têm razões para temer a comparação com os indicadores internacionais de referência. Em 30 anos, o SNS catapultou um país com números do terceiro mundo para indicadores de referência que nos colocam à frente de alguns países escandinavos. Em que área da economia, ciência ou investigação é que isso acontece? Mesmo no privado. Que empresa portuguesa é que pode dizer que está entre a elite mundial na sua área?

Mas, querem uma alternativa? Não é muito difícil. O OE para 2008 consagra 380 milhões de euros para empresas de consultoria técnica e de comunicação. Uma absurda duplicação de recursos de um Governo que conta com centenas de assessores e técnicos nos ministérios, institutos, serviços centrais ou regionais. O Estado paga a assessores cuja única tarefa é adjudicar serviços a empresas externas. Podiam começar por aí e cortar mais de 90% nessa despesa de propaganda e auto-justificação das decisões políticas do Governo. Ficava mais barato do que desertificar o país e deixar as populações a mais de uma hora de um serviço de pré-emergência hospitalar. E podiam ter a certeza que os portugueses percebiam a política.

20 janeiro, 2008

O bom

As notícias que dão conta da desumanidade das juntas médicas são manifestamente exageradas. Ontem mesmo, em carta enviada ao Público, Paulo Teixeira Pinto indica que passou “à situação de reforma em função de relatório de junta médica”. Certamente ainda mal refeito da forma como foi corrido do BCP e da Opus Dei, este banqueiro de 46 anos foi considerado inapto para o trabalho, apesar de já ter arranjado um cargo numa consultora financeira.

PS: Teixeira Pinto nega ter recebido 1o milhões de euros de "indemnização pela rescisão do contrato” com o BCP, garantindo que apenas recebeu a “remuneração total referente ao exercício de 2007”: 9.732 milhões de euros em "compensações" e "remunerações variáveis". Nada como ser preciso nestas coisas. E pedir ao Estado, através da tão vilipendiada Segurança Social, que lhe conforte as agruras da vida.

o mau

Ana Maria Brandão, portadora de cervicalgia e lombalgia degenerativas que a mantêm na cama vai para mais de quatro anos, soube a semana passada que a Junta de Freguesia onde trabalha lhe vai deixar de pagar o ordenado. Depois da Caixa Geral de Aposentações lhe ter negado a reforma antecipada, os 400 euros que recebia da Junta de Freguesia de Vitorino de Piães eram a única forma de sustento de uma mulher que gasta mais de 200 euros mensais em medicamentos.

e o vilão

Em Novembro do ano passado, depois de ter sido instada pela Caixa Geral de Aposentações a apresentar-se ao trabalho, Ana Maria Brandão regressou à junta de freguesia, tendo cumprido o horário laboral sentada numa cadeira e encostada a uma parede, sempre acompanhada pelo pai. Nesse mesmo dia, e perante a exposição mediática do caso, o ministro das Finanças, Teixeira dos Santos, anunciou que ela iria entrar novamente de baixa médica. Não tendo conseguido encontrar uma Junta tão compreensiva como a que avaliou o temente Paulo Teixeira Pinto, e apesar de não lhe terem mandado fazer nenhum exame, Ana Maria Brandão foi novamente considerada apta. Agora, nem recebe da Caixa Geral de Aposentações nem pela Junta de Freguesia. Deve ser a isto que se referem quando falam na perda da autoridade do Estado. Já nem uma palavrinha do ministro das Finanças livra os funcionários públicos.

26 dezembro, 2007

Cosmopolitismo de fachada

Até há poucos dias nunca tinha ouvido falar no nome. Parece que Cristina Areia é uma das vedetas das telenovelas juvenis da TVI. Talvez por isso foi convidada pela junta de freguesia para abrilhantar a festa de Natal das escolas de Alfama. A sua tarefa era simples. Anunciar o nome das crianças à medida que iam subindo ao palco receber umas prendas. Mas a Cristina é uma rapariga sensível e tradicionalista. Há nomes que lhe fazem espécie. A Bárbara Reis, no Público do passado sábado, conta como, em pouco tempo, a menina conseguiu insultar quase todas as pessoas presentes na festa:

- Hania! Ai credo, o que é isto? Ah, é indiana...Pronto, está bem.
- João bin[qualquer coisa]. Bin?! Será primo do Bin Laden. Cuidado, se calhar é melhor irmos embora.

- Ramona! Mas o que é se passa em Alfama? Que nomes esquisitos! Dantes era só Maria de Lourdes e Anas Cristinas, não era?

- Ana! Um nome normal, viva a tradição, viva!
- Regiane. O que passou pela cabeça destes pais?

Neste último ponto teve razão. O que passou pela cabeça de dezenas de pais para não se levantarem e interromperem este espectáculo degradante? Neste país dos brandos costumes, parece que os familiares das Anas Cristinas acham normal que alguém insulte e envergonhe em público uma criança porque não se chama Maria Albertina. O que não deve ter passado pela cabeça da Cristina Areia é que muitos deles nasceram no nosso país e são tão portugueses quanto ela, mas isso para o caso até é indiferente. Mais revelador é que esta vedeta da televisão é a voz de um país que se diz tolerante mas que se conforma com estas gratuitas demonstrações de xenofobia. Uma voz que tem autoridade e impunidade porque, à sua volta, todos se calam e encolhem. Os pais das Anas ou porque tiveram vergonha ou porque até acharam piada. Os outros, os pais das Ramonas e das Regianes é que me preocupa. Porque o seu silêncio é a mais violenta demonstração de como funciona o racismo dos pequenos gestos do dia-a-dia e de como este está interiorizado pelas suas vítimas. Ninguém se levanta porque não é suposto protestarmos numa casa que não é a nossa. É assim este Portugal natalício. Andamos o ano todo a tentar vender lá fora uma imagem de cosmopolitismo e modernidade, para, cá dentro, percebermos que o cosmopolistmo que aceitamos e toleramos se esgota nos Antónios, Marias e Silvas. Já agora, alguém podia explicar à Cristina que não se deve gozar com o nome dos outros. É que alguém pode olhar para o dela e reparar que Areias é nome de camelo. O que explica alguma coisa.

01 novembro, 2007

É assumir o risco





Fotos de cabelinho à paulo bento
Ver também riscoaomeioexatamentameioepamesmomeio.


Aqui há dias, enquanto aproveitava um telefonema para exercitar a minha veia Lusitana - queixava-me portanto - ouvi uma coisa curiosa. Como resposta ao meu lamento pela falta de tempo para cortar o cabelo obtive: 'desde que não andes com um cabelinho à Paulo Bento'.

Como emigrante a minha interacção com a figura de Paulo Bento é diária mas distante. Mal me lembro de quando jogava à bola, não estava em Portugal quando entrou para treinador e nunca vi nenhum jogo do Sporting desde então. Fico-me pela imprensa desportiva online que consumo aqui e ali, sempre intermitente e de frases curtas. Aí, à distância e filtrado, Paulo Bento não parece diferir de outros: os soundbytes da ordem ao sabor dos resultados. E ninguém fez referência ao cabelinho, nunca.

Mas quando me disseram 'cabelinho à Paulo Bento', soou bem, natural, Luso mesmo. Mas como é que eu me esqueci que o 'olha práquele cabelinho' - seguido de arroto - faz todo o sentido? O inho que serve de escala para tudo. O escárnio constante, exacto e cortante, ideal para passar o tempo entre a jola e a cuspidela conjunta de cascas de tremoços. Pensando bem, o escárnio em inho é Portugal-redux. Desde que não vá aterrar no sapato do Senhor Doutor, serve para passar a tarde e mantém a discussão no acessório que o essencial é triste demais.

Adenda: Ou complicado demais. O pessoal que coma tremoços tailandeses e beba cerveja pelo copo de plástico comprado no LIDL e está bom de ver que isso é progresso não-referendável. Envolve mistérios que não podemos compreender. E como é sabido não é possível referendar todas as maravilhas do Senhor. Portanto, não precisamos de ouvir, não precisamos de explicar, não precisamos de argumentar. O bloco central está cá é para decidir e o resto é demagogia e gentes de morais dúbios. Só falta avisar com fumata bianca.

É o que temos feito nas últimas décadas. É o que vamos continuar a fazer. Certo? ... E de repente Paulo Bento começa a parecer um tópico mais feliz de conversa. O ciclo eterno continua, num país perto de si.

29 outubro, 2007

Sem comentários

No último sábado à noite, em Lisboa, pouco depois das 23 horas, presenciei o seguinte diálogo. Três adultos, com pouco mais de 30 anos, e duas crianças entre os cinco e os seis, saem de um restaurante italiano. Perante a insistência dos pequenos em calcorrearem o passeio a grande velocidade, a mãe vira-se para o maior e diz-lhe para vir para o pé dela "se não queres que te aconteça o mesmo que à Maddie". Perante o ar despreocupado do filho, a mãe lembrou-o novamente. "Já te esqueceste? Foi aquela criança inglesa que desapareceu e que os pais nunca mais encontraram".

25 outubro, 2007

E têm relações sexuais 7 vezes por semana e lêem 10 livros por mês

De acordo com o Eurobarómetro, ontem divulgado em Bruxelas, apenas 3% dos portugueses admitem fugir ao fisco, um valor inferior à dos restantes países europeus (5%). Segundo o Diário de Notícias, o mesmo estudo indica que os portugueses são o povo europeu que mais confia na máquina fiscal, acreditando que existe um elevado risco dos incumpridores serem detectados pelas autoridades.

05 outubro, 2007

O estado da nação

Fotografia de Paulete Matos

13 setembro, 2007

Se é para dar porrada


e atirar poeira para os olhos, já temos o Avelino Ferreira Torres.

12 setembro, 2007

Vergonhoso

Miguel Barreira/AP
Como se já não bastasse a justíssima fama de arruaceiros que têm os jogadores da selecção nacional de futebol, agora também temos um treinador que agride, ao soco, os adversários. Vergonhoso não é empatar. Da forma como a equipa está a jogar, até foi uma sorte. Vergonhoso é não aceitar a mediocridade, e falta de ambição, do futebol praticado e implicar com o primeiro jogador que se encontra pela frente. Daqui a uns minutos deve ser a conferência de imprensa. Ou muito me engano ou ainda vai sobrar para o árbitro.

Actualização: Não há nada mais previsível que o futebol português. Sete minutos depois de escrever, lá apareceu o Scolari a criticar o árbitro pelo resultado."É muito sábio esse árbitro", ou "devem chamar a atenção ao Platini" sobre a arbitragem, foram apenas algumas das pérolas ouvidas. A agressão, claro, também foi culpa do homem do apito. "O jogador que diga se lhe toquei num único cabelinho", desafiou. Mas não é muito redutor culpar a arbitragem, pergunta o jornalista? "Não, não, a culpa é minha", resmunga, visivelmente desagradado com a perguntas, e vira as costas.

09 setembro, 2007

Compre-me isso, Portugal

Como se sabe, a Procuradoria Geral da República decidiu não abrir nenhum inquérito ao eventual favorecimento da Somague, na sequência do financiamento ilícito ao PSD, ficando-se as investigações à construtora civil limitadas ao incumprimento fiscal. Uma decisão que poupou muitas dores de cabeça, principalmente a Diogo Vaz Guedes, que teria que responder à PGR porque razão pagou, à margem da lei e sem o declarar, mais de 230 mil euros a um partido que estava à beira de chegar ao governo. Há perguntas que mais vale não fazer. Gente respeitada, e que deu a cara durante tanto tempo pelo inquestionável Compromisso Portugal, não deve ser importunada com minudências.

ps: O título deste post foi descaradamente roubado a um artigo publicado na imprensa, por um grupo de economistas, criticando a forma acrítica e parcial como a imprensa económica cobre as actividades e propostas do Compromisso Portugal.

08 setembro, 2007

Não tínhamos saudades disto

A naturalidade, e a falta de ambição, com que se foram encarando sucessivos empates com equipas menores deu nisto. Não foi hoje que as coisas correram mal, mas quando o treinador foi justificando embaraçosos empates dizendo que os adversários "correram muito". Foi aí que arrastámos, sem nenhuma razão, o apuramento para os resultados dos últimos jogos. Agora, uma selecção nacional marcada pelas lesões no eixo da defesa, e pela má forma do início de época de muitos jogadores, ficou à mercê de um ressalto num jogo menos feliz para voltarmos às contas a que já não estávamos habituados. Não havia necessidade.