21 novembro, 2007

Kindle garden


Seria suposto que a digitalização de uma parte crescente dos conteúdos culturais conduzisse a uma maior liberdade do consumidor. Afinal, a grande vantagem da imaterialização dos suportes deveria ser a possibilidade da sua utilização em vários aparelhos. Em casa, no computador ou televisor, mas também na rua, com os cada vez mais presentes leitores de mp3, computadores portáteis ou mesmo telemóveis. A convergência de formatos tratava do resto. Nada mais errado. A cada novo aparelho e moda digital aumentam as restrições à sua utilização e difusão.

O novo menino bonito da imprensa mundial é o mais recente exemplo dessa tendência. Lançado com grande fanfarra na capa da Newsweek, o Kindle é o aparelho com que a Amazon diz pretender revolucionar a forma como lidamos e lemos os livros. Trata-se de um pequeno, e leve, aparelho digital que serve para ler versões electrónicas dos livros. O Kindle é tão caro quanto feio, custando 400 dólares, e permite também aceder, através de uma rede sem fios, aos conteúdos de blogues e jornais na net.

Como é normal, fora da fanfarra fica a leitura das pequeninas letras que limitam a sua utilidade. Um livro podemos comprar e emprestar. Com o Kindle não. Para além de usar um formato proprietário que só pode ser comprado na Amazon, mesmo depois de adquir o livro não o podemos guardar no computador nem emprestar a quem quer que tenha o mesmo aparelho. Se o Kindle se avariar a Amazon diz que devolve os livros já comprados, o que até pode ser verdade, mas fica sempre a questão do que acontece se o formato não vingar e a Amazon se desinteressar do mesmo. Não é uma mera questão académica, tendo já acontecido com o Google Vídeo. A coisa não funcionou bem, a empresa fechou o serviço e todos quantos tinham comprado os filmes nesse formato ficaram sem o dinheiro e sem filmes.

Mas o pior são mesmo as características mais “modernas” do aparelho. O Kindle permite ler ficheiros Word ou Pdf. Mas têm que ser enviados, previamente, para a Amazon para serem convertidos. Um serviço que é pago! Outra das grandes vantagens do novo suporte, diz a Amazon, é que permite aceder, através de uma rede sem fios, à versão electrónica de vários jornais e blogues. É verdade, mas só os 250 seleccionados pela cadeia electrónica. Para aceder a essa possibilidade tem que se pagar uma mensalidade à empresa. Ou seja, os blogues e jornais que se podem consultar gratuitamente com um portátil ou pda, no Kindle têm que se pagar. É uma das características mais curiosas da economia digital. Cobrar pelo que sempre foi gratuito e “vender-nos” o produto como uma grande revolução.


A maioria da imprensa internacional, e o Público (que colocou uma setinha ascendente ao dono da Amazon, dizendo que está a "abrir novas portas ao prazer de ler"), acham que o futuro da leitura passa por aqui. Se o futuro é pagarmos para lermos livros digitais que não podemos emprestar, imprimir, ou guardar num aparelho que não seja da Amazon - e que não nos oferece nenhumas garantias de que existirá daqui a uma década - então, como dizia o José Mário Branco no FMI, "que se foda o futuro, que se foda o progresso".

15 comments:

Joshua disse...

Dupond e Dupont, há que dizer que se foda o futuro e que se foda o progresso.

samuel disse...

E diz o Zé Mário muito bem!
Por vezes estes "cientistas" deslumbrados com a sua suposta genialidade, deviam ter verdadeiros amigos que lhe "dissessem umas verdades..."

Afrika disse...

Ah! As vezes fico com umas saudades do tradicional ...

gays não entram disse...

off-topic: não se escreve nada aqui sobre a campanha vergonhosa da cerveja tagus? Espreita lá Pedro Sales: www.tagus.pt e www.orgulhohetero.com

Anónimo disse...

Já não é a primeira vez que leio algo de manhã no boing boing e à tarde no zero em conduta, numa versão reciclada e aportuguesada. vejam lá se não são parecidos os artigos: http://www.boingboing.net/ (não é dos primeiros posts)

o sr. sales podia pelo menos indicar a fonte.

L. Rodrigues disse...

Ainda usando o FMI de José Mário Branco, e adaptando:
Filhos da puta do caralho da revolução digital que os foda a todos.

Pedro Sales disse...

Caro anónimo,

Aparece hoje no Boinboing? Claro, está em todo o lado. Foi por isso que falei em "grande fanfarra". Até esteve na edição de ontem do Público, copo refiro e de onde tirei grande parte da informação sobre as características técnicas do aparelho.

de resto não estou a ver a semelhança. O artigo do BoingBoing pode ser visto aqui: http://www.boingboing.net/2007/11/20/amazon-kindle-the-we.html#comments

O Boingboing pega na contradição entre o discurso do presidente da Amazon quando queria vender livros e agora que também quer vender as suas cópias digitais. Não faz nenhuma referência à economia digital no seu todo - que é o centro do meu post. De resto, fica já a saber que a informação que usei foi retirada do Kottke.org, newsweek e nytimes e Público.

Há milhares de textos sobre as questões técnicas do aparelho. Foi o que fiz, fui lê-las. Diga-me lá como é que se faz isso sem ser parecido com o que vem noutro lugar?

Quanto tiro informação que só descobri num sítio ela é citada e linkada. Não foi o caso. Nem fui ao Boingboing que, de resto, não refere metade das coisas de que falo.

O Boingboing não gosta do Kindle pela mesma razão que eu o critico. São acémirros opositores de aparelhos com DRM, ou seja, restrições digitais ao seu uso. É uma posição que subscrevo.
Como pode ver em vários posts que aqui escrevi sobre a indústria musical ou o fim do Google video. Não é de hoje que me refiro ao assunto que, mais uma vez, não é exclusivo do Boingboing, mas de um inúmero conjunto de sites que tratam de questões sobre a economia digital. O kottke, que já referi, ou a Arstechnica.

Mas, pronto, qualquer coisa que tenhamos escrito já saiu em algum lado. Mesmo que os argumentos sejam outros.

Anónimo disse...

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