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03 fevereiro, 2008

Os barões são para as ocasiões

Depois de ter andado semanas a ameaçar com uma comissão de inquérito à actuação do Banco de Portugal no caso BCP, Menezes recuou. Que não, que "somos um partido responsável, com sentido de Estado". Como a mudança de agulha teve lugar depois de uma reunião com os outrora detestados barões do partido - quase todos a trabalhar na banca e com ligações ao BCP e Banco de Portugal -, fica a impressão que o súbito apreço de Menezes pelo "sentido de Estado" lhe terá sido assoprado ao ouvido por alguém mais sisudo e com pouca vontade de ver a elite laranja no Parlamento a justificar-se perante os deputados. Isto como vai já vai mal, não é preciso piorar. E esperar que não chegue ao banco do Dias Loureiro e amigos.

27 dezembro, 2007

Para Uma História Sanitária da Academia Portuguesa

Este post do Miguel Vale de Almeida lembrou-me um anúncio do departamento de gestão do ISCTE. Era um anúncio que se dirigia a todo aquele ou aquela que se aprestava para escolher a sua futura licenciatura. O mais importante no anúncio era uma legenda que comentava uma fotografia parecida com esta aqui em cima e que dizia: "Esta será a última cadeira da tua licenciatura em Gestão".
Perante isto, e já lá vão alguns anos, uns quantos entre nós refilámos contra a banha-da-cobra que presidia à propaganda em causa. Altas instâncias do ISCTE, no entanto, responderam que não se tratava de uma "falsa promessa", como nós acusávamos, mas que sim se tratava de um "estímulo". Acabei por aceitar o argumento e, na verdade, até acabei por fitacolar o anúncio-panfleto sobre a tampa da sanita cá de casa; se era um "estímulo" para tantos, então também poderia sê-lo para os visitantes cá de casa, ajudando-os a sentirem a nossa sanita como se fosse sua, o que é sempre complicado. Infelizmente a coisa resultou tão bem que houve algum malandro ou alguma malandra que se sentiu suficientemente à vontade para levar o panfleto-anúncio consigo. Se o virem por aí, é favor trazerem novamente. É que a malta por aqui gosta de fazer merda à grande e à francesa, como só os grandes líderes de gestão sabem fazer.

24 dezembro, 2007

Uma dúvida metafísica

Ainda estou indeciso a tentar perceber o que é mais ridículo. Se Menezes criticar uma eventual OPA socialista ao BCP para, logo a seguir, sugerir um nome ligado ao PSD, se aqueles que, perante o desmoronar da credibilidade, imagem e independência do maior banco privado, defendem a privatização da Caixa Geral de Depósitos.

10 dezembro, 2007

Foi um sucesso pá, não foi?

A mensagem vem repetida, a uma só voz, em toda a imprensa portuguesa. A cimeira Europa-África foi um sucesso alterando o paradigma das relações entre os dois continentes. Doravante partilhamos a “mesma agenda”. Que sentido tem isto? Como é que o continente onde se encontra a maioria dos países mais miseráveis do mundo pode ter a mesma agenda do bloco comercial mais poderoso do planeta? Qual é a agenda comum entre um operário qualificado alemão e um trabalhador agrícola moçambicano, que passa quase toda a sua a vida sem sair do latifúndio onde trabalha? E entre a economia francesa e do Chade. A "mesma agenda" não passa de um eufemismo para a liberalização e desregulação dos mercados. Foi esse o caminho para o desenvolvimento que a Europa propôs a África. Não deixa de ser irónico que os líderes de um gigante agrícola altamente subsidiado, fechado e regulado se dirijam, paternalistamente, para os países pobres ou em vias de desenvolvimento e exijam a abertura total e desregulação do seu mercado como condição para o seu interesse. O que é bom para nós nos desenvolvermos e tornarmos ricos não serve para vocês. Nós temos a receita. É o liberalismo assimétrico no seu esplendor

Que tenha sido um dos poucos líderes decentes a bater com a porta, o presidente do Senegal, ou a principal potência industrial, a África do Sul, a dizer que os acordos de parceria economia não servem é sintomático. Parece que alguns ditadores provocam dores de cabeça a Gordon Brown e demais líderes europeus. Passam a vida a falar de bom governo e governança enquanto as empresas europeias florescem com acordos leoninos assinados às claras com as piores tiranias. Mas, como sempre, as dores de cabeça e os embaraços que contam ainda têm lugar com a autonomia que só a democracia permite.

Bem vistas as coisas, a pobreza (já) é o seu negócio

Mesmo longe da cimeira Europa-África, Gordon Brown quis provar que também é homem para ter as suas preocupações humanitárias, apresentando um plano para conquistar 20 grandes multinacionais para apoiar os países mais pobres no seu esforço de desenvolvimento. Para começar, Brown diz estar já em negociações com empresas como a Vodafone, Google ou Wall-Mart. Sim, leram bem, a Wall-Mart. Aparentemente o primeiro-ministro britânico quer-nos fazer acreditar na responsabilidade social de uma empresa cujas práticas comerciais e laborais deram origem à inédita situação de ter a sua entrada em Inglewood - subúrbio de Los Angeles onde jogam os Lakers - vetada num referendo pela população local . Os argumentos? A destruição do pequeno comércio e a degradação dos salários da região. Como se vê, um currículo exemplar para apoiar os mais pobres dos pobres. Afinal, poucos se podem orgulhar de ter um tão vasto trabalho com a pobreza. Da sua expansão, pelo menos.

25 novembro, 2007

Pasta

Enzo Rossi é um empresário italiano que, durante um mês, tentou viver com os mil euros que pagava aos operários da sua fábrica de pastas alimentares. Ele a sua mulher, que também trabalha na empresa, tentaram gerir a sua vida com dois mil euros. Como o dinheiro, mesmo poupadinho, só chegou até ao dia 20, Rossi resolveu aumentar os vinte empregados em 200 euros por mês. O episódio tornou-se um caso em Itália, e já correu mundo. Quando lhe começaram a chamar "empresário comunista", respondeu que não. Que é egoísta. Quer empregados motivados e despreocupados com a ginástica mental para pagar as contas, disse. Uma evidência.

A forma como o episódio tem sido contado pela imprensa faz lembrar uma frase de Freitas do Amaral durante a contestação à invasão do Iraque. Quando questionado porque razão se foi alinhando com posições políticas mais comuns à esquerda, Freitas respondeu que nunca mudou. O panorama politico é que se desviou para a direita. De facto, vivemos tempos extraordinários. Os trabalhadores desapareceram e deram lugar aos colaboradores, as bolsas ressuscitam a cada notícia de despedimento e o que devia ser a norma, aumentar empregados que recebem bastante abaixo do salário médio, tornou-se a excepção. Dá direito a excursão de ministros, a seminários em faculdades de gestão e a dezenas de entrevistas. É uma espécie de intervalo na programação do noticiário para apresentar um “comunista” no seu habitat natural. Um freak show. Com tanto elogio, parece que ninguém perdeu tempo para fazer as contas e reparar que o generoso aumento só vai durar até ao dia 24 de cada mês.

15 novembro, 2007

Not The Daily Show, With Some Writer


Mesmo em greve, os argumentistas do Daily Show continuam a provocar ondas. Aqui, num dos imensos piquetes de greve, desmontam de forma implacável os argumentos usados pelos grandes estúdios. Mesmo sem o Jon Stewart, vale a pena ver.

11 outubro, 2007

Alegria no trabalho


Contrariamente aos velhos do Restelo que teimam em insistir que nos call center impera a subcontratação e os baixos salários, este anúncio é a prova definitiva sobre a sua visão distorcida do mercado. A Marta já não atende os telefonemas e tem um qualquer posto de chefia, provando como as carreiras são estáveis e valorizadas, o ambiente é espaçoso e impera a motivação no trabalho. Para além disso, os empregados são seleccionados na Elite Models e, como é regra na maioria das empresas, só usam computadores da Apple. Há o país real, o país do Governo e um país qualquer que ninguém conhece e que aparece nos anúncios.

(Actualizado)Para todos aqueles que pretendam uma ideia mais consentânea com o que se passa nestas empresas, vale a pena ver o blogue da Ferve, fartos destes recibos verdes