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29 janeiro, 2008

Os amigos são para as ocasiões

O mesmo Governo que reintroduziu os benefícios fiscais para os PPR, reduziu o remuneração dos certificados de aforro pela segunda vez no espaço de 18 meses. Uma medida que prejudica 700 mil portugueses, essencialmente idosos e com pequenas poupanças, que compraram os certificados confiando na palavra do Governo e se vêm agora, de um dia para o outro, com um produto que perde 10% de rendimento a médio prazo. Será normal que uma parte significativa dos pequenos aforradores emigrem para os fundos da banca, que se vê agora com produtos similares e melhor remuneração do que as novas taxas dos certificados de aforro, mas onde vão deparar com um sem número de produtos financeiros com um risco muito mais elevado. Como estamos a falar de pessoas com um escasso conhecimento dos produtos financeiros existentes, e os funcionários das agências bancárias têm metas a apresentar, será muito provável que alguns dos reformados acabem por investir as suas poupanças num “fundo fantástico na Papua Nova Guiné”. Uma sondagem do Eurostat, hoje citada no Diário Económico, diz que “só 10% dos portugueses estão optimistas com a economia”. Bate certo. Devem ser os accionistas da banca.

08 janeiro, 2008

Contente com quê?

No auge do autismo cavaquista, o então primeiro-ministro orgulhava-se de despachar os jornais em cinco minutos. Sócrates deve ir pelo mesmo caminho, pois só assim se pode compreender a sua afirmação de que "2008 será melhor que 2007, como 2007 já foi melhor do que 2006". 2007 foi um bom ano? Um dia antes das janeiras que cantaram para um animado primeiro-ministro, o Público indicava que a "situação financeira das famílias [está] tão má como no auge da crise ", um dia depois o Eurostat fez saber que Portugal foi um dos dois países europeus em que o desemprego subiu em 2007. 2008 será ainda melhor, garante José Sócrates, tentando esquecer-se de que o petróleo está nos 100 dólares, da crise financeira à escala mundial e que a economia americana se encontra em retração. A vida não melhora se nos esquecermos das dificuldades, o ano não corre melhor por não nos lembrarmos dos problemas.

Apanhando a onda, o ministro das finanças diz que a economia está "robusta" e que o Governo "não vai pedir mais sacríficios aos portugueses". Pois. Ainda hoje, o Correio da Manhã dá conta de que o Governo dividiu o retroactivo de Dezembro das pensões pelos ano de 2008. Ou seja, numa pensão média de 400 euros, que tem um aumento de 9,6 euros mensais, o pensionista não está a receber este valor este mês, mas sim 68 cêntimos repartidos pelos 14 meses. 68 cêntimos. Sempre dá para beber mais um café por mês. Razão tem o ministro das finanças. Acabaram-se os sacrifícios. Agora é só a normalidade da governação. O que, no seu caso, não é grande razão para alívio.

31 dezembro, 2007

Estupidez gananciosa

Não contente em processar todos os adolescentes que apanha na rede a trocar música, as grandes editoras musicais resolveram ensandecer de vez e declarar, num processo contra um cidadão norte-americano, que é ilegal transferir musicas de um CD – comprado legalmente – para o computador. Só mesmo a indústria mais estúpida do mundo para tentar regular a utilização individual de um produto comprado legalmente. O processo não tem muitas pernas para andar, mas não deixa de ser mais um sinal na evidente fobia persecutória de um indústria que teima em acreditar que a solução para um modelo de negócio esgotado se encontra na barra do tribunal. O problema é outro e bem simples. Ninguém quer ouvir a música que editam. É toda igual. Dezenas de girls e boys bands que duram um semestre e já ninguém quer saber. As bandas independentes, ou as que, como os Radiohead, escolhem modelos diversos de distribuição, estão bastante bem e não se queixam. E gastando bem menos em advogados.

27 dezembro, 2007

Para Uma História Sanitária da Academia Portuguesa

Este post do Miguel Vale de Almeida lembrou-me um anúncio do departamento de gestão do ISCTE. Era um anúncio que se dirigia a todo aquele ou aquela que se aprestava para escolher a sua futura licenciatura. O mais importante no anúncio era uma legenda que comentava uma fotografia parecida com esta aqui em cima e que dizia: "Esta será a última cadeira da tua licenciatura em Gestão".
Perante isto, e já lá vão alguns anos, uns quantos entre nós refilámos contra a banha-da-cobra que presidia à propaganda em causa. Altas instâncias do ISCTE, no entanto, responderam que não se tratava de uma "falsa promessa", como nós acusávamos, mas que sim se tratava de um "estímulo". Acabei por aceitar o argumento e, na verdade, até acabei por fitacolar o anúncio-panfleto sobre a tampa da sanita cá de casa; se era um "estímulo" para tantos, então também poderia sê-lo para os visitantes cá de casa, ajudando-os a sentirem a nossa sanita como se fosse sua, o que é sempre complicado. Infelizmente a coisa resultou tão bem que houve algum malandro ou alguma malandra que se sentiu suficientemente à vontade para levar o panfleto-anúncio consigo. Se o virem por aí, é favor trazerem novamente. É que a malta por aqui gosta de fazer merda à grande e à francesa, como só os grandes líderes de gestão sabem fazer.

16 dezembro, 2007

Speechless


Pequeno filme de Woddy Allen, apoiando a greve dos argumentistas.

Porreiro pá, redux

Por estes dias, do Parque das Nações a Bali, parece ser suficiente juntar chefes de Estado, ministros e respectivas comitivas para que todos os encontros sejam um “sucesso muito significativo”. Foi assim que um deslumbrado ministro do ambiente resumiu uma cimeira sobre as alterações climáticas que trocou imposições concretas de redução de emissões de CO2 por uma nota de rodapé. Não foram os EUA que se juntaram ao consenso. Foi o consenso que cedeu aos EUA, numa cimeira que atirou os principais problemas para baixo do tapete e adiou as principais discussões por mais dois anos.

10 dezembro, 2007

mão suja, pena sabuja

Uma Europa com um líder que não foi eleito e uma constituição imposta sem votos usou a sua agenda democratizadora como cortina de fumo. Os soundbytes de Kadhafi e Mugabe -sempre à procura de um palco - fizeram o resto e proporcionaram a jornalistas, bloggers e activistas uma cobertura fácil da cimeira.

Neo-colonialismo versus dívidas do colonialismo, democratas versus ditadores, esqueletos no armário versus realpolitik. Histórias de fácil digestão que asseguraram, de uma maneira ou outra, a mensagem oficial de Lisboa: os direitos humanos no centro da nova parceria, abria o Público de ontem (p.2, sem link), assegurando que "Sócrates vence aposta da Presidência Portuguesa". Happy ending portanto apesar de todas as nuvens negras no horizonte do grande timoneiro. Ou não?

Tal como boa parte da imprensa mundial (basta googlar) e Ricardo Paes Mamede (aqui) e Pedro Sales (mesmo aqui) notam, em jogo nesta cimeira estavam os Acordos de Parceria Económica - leia-se, a liberalização de comércio e investimento entre os dois continentes - que vem substituir os acordos de Lomé e Cotonou. A sacrossanta governância foi apenas uma cortina de fumo que serviu para esconder o objectivo económico falhado.

E falhou devido à postura arrogante da Comissão Europeia. Falhou quando Peter Mandelson - outro grande democrata não eleito - ameaçou os países africanos com a subida unilateral de tarifas por parte da UE, falhou quando Barrasshole repetiu a mesma ameaça este fim de semana e já tinha falhado quando outro grande-democrata-comissário-não-eleito, Louis Michel teve de avisar:

"In the words of the EU's development commissioner, Louis Michel, Europeans must now clearly understand that Africa is no longer Europe's private hunting ground. " (aqui para BBC).

Da perspectiva de Bruxelas, a cimeira esteve sob o espectro da ameaça Chinesa na sua zona de caça, mas nenhum jornalista pareceu ter presente que seria importante entrevistar o observador Chinês na conferência. Ficaram-se pelo aplauso aos direitos humanos estarem no centro: não se sabe bem no centro do quê, mas no centro de qualquer das maneiras. E nem aí notaram a contradição de a Líbia ter assinado um acordo com a Secil - com o aceno mafioso de Kadhafi e do Governo Português- quando a tinta ainda não tinha secado nos dignos acordos de Lisboa.

Nada mudou no velho continente: a superioridade moral, a mão suja e a pena sabuja.

30 novembro, 2007

Nove razões para uma greve


* Para 2008, a Comissão Europeia já anunciou que a inflação deverá ser de 2,4%.

25 novembro, 2007

Economia espiritual? É no Bombarral


Meditação pela paz Mundial, no Bombarral, "liderada pelo reputado economista e activista espiritual, Alfredo Sfeir-Younis", Oeste-TV. Ver também a entrevista da Oeste-TV ao economista espiritual, aqui.

Um evento new age no Bombarral? Estranho, mas possível. O maior "parque oriental" da Europa? OK, um bocado forçado, mas porque não? Um movimento mundial pela paz, com meditações semelhantes em Washington, D.C. liderado pelo mesmo Dr. Alfred Younis e pelo seu "Zam
buling Institute For Human Transformation", com escritório em Lisboa e base no Bombarral? Já é exagero, não?

Não, nem por isso. A coisa fica mais estranha a cada busca no Google. Ora atentem:


Alfred Sfeir-Younis (ou aqui), reputado economista chileno, filho de distintas famílias libanesas, quadro de topo no Banco Mundial de James Wolfensohn, de nome espiritual Cho Tab Khen Zambuling e alto padre Maia, encontrou o seu retiro no Bombarral.

Há uns anos, Don Alfredo, "o Embelezador", estava nas ruas de Seattle, a vigiar os movimentos de protesto e a tomar nota das reivindicações feitas pelos manifestantes para informar os seus colegas de direcção do Banco Mundial (aqui). Hoje está em Portugal, a avançar a causa da economia espiritual.

Meditemos no assunto porque isto não é normal. Nem no Bombarral.

10 novembro, 2007

O dólar perdeu o sex appeal

Qual crise do "subprime" qual quê. Se alguém ainda tinha dúvidas de que alguma coisa se passa com a economia norte-americana, ponha os olhos na Gisele Bundchen (reconheço, a piada é demasiado óbvia) que só aceita ser paga em euros ou no vídeo promocional da banda sonora do novo filme de Ridley Scott. Sinal dos tempos, Jay-Z, um dos principais nomes do rap, apresenta um molho de notas de euro como sinal máximo de riqueza. O rap das notas verdes e brutos colares de ouro rendeu-se ao euro. É definitivo: o dólar perdeu o sex-apeal. Pior, as autoridades chinesas já põem em causa o investimento nos títulos da reserva dos EUA – um dos suportes do gigantesco défice criado por Bush para pagar a Guerra e os gigantescos cortes de impostos para os 1% mais ricos. Talvez isso explique porque razão Bush conseguiu o impensável: ter pior índice de aceitação do que Nixon na véspera deste ser destituído.

08 novembro, 2007

Queremos mentiras novas

"Tudo faremos para que os funcionários públicos não percam poder de compra", disse José Sócrates há menos de um mês. Uma promessa, mais uma, que não é para levar a sério. Ontem, soubemos que os aumentos destes funcionários vão ficar nos 2,1%, um valor de referência também para o sector privado. O mesmo valor que o Governo prevê para a inflação em 2008. Como há anos e anos que sucessivos governo revêm a inflação em alta depois de decidir os aumentos salariais, o resultado deverá ser o mesmo dos últimos nove anos: a diminuição do poder de compra os portugueses. Os mesmos a quem José Sócrates deu os parabéns pelos sacrifícios para atingir os 3% de défice, ficaram agora a saber que até atingirmos os o,4% de défice "não podemos entrar em veleidades". Os sacrifícios são para continuar, pelo menos até 2010, asseverou o ministro das Finanças.

A ameaça do défice legitima todas as restrições sociais. É como a história do bastão e da cenoura. Como o primeiro nunca apanha o vegetal, corre sempre atrás da sua ilusão. Não existe nenhuma evidência que garanta que a existência de um défice zero estimula a economia. A obsessão com o défice é apenas a ameaça que justifica todas as restrições sociais, bem como o corte nos serviços públicos ao mesmo tempo que se aumenta a carga fiscal. Primeiro era preciso deixar para trás o défice excessivo. Depois a meta passou a ser atingir os 3 %. Agora, é para chegarmos aos 0,4% em 2010. Depois, logo se inventa qualquer coisa para continuar a cortar nos salários e nos serviços públicos. Podiam ser mais originais. Queremos mentiras novas.

27 outubro, 2007

especulação numa ciência oculta


$2,400,000,000,000. 2 milhões de 400 milhões de dólares (ou 2 triliões e 400 biliões?). É até agora a estimativa mais alta do custo da guerra. (disclosure): eu perco-me nos milhares de milhões.

Cada um dá o seu palpite. Há uns meses, o NYTimes fez as suas contas e chegou a 1.2 triliões. Há quem faça contas ao dia (300 milhões de dólares), há quem prefira a longue durée de uma semanita (2 biliões). Até agora, e só em investimento aprovado pelo congresso, já se gastaram mais de 350 biliões de usd na ocupação do Iraque. Stiglitz (conselheiro Clinton I, Nobel 2001, autor de Globalization and its Discontents -- mercadoria quentinha) aposta nos 2 triliões. Certo, certo é que longe vai o tempo em que um conselheiro da Casa Branca era despedido por sugerir que o custo total da guerra andaria nos 200 biliões de usd. (NYTimes)

Mas de acordo com estas contas do congresso, e prevendo que os EUA fiquem no Iraque e Afeganistão até 2017, o governo federal Americano enterrará qualquer coisa como 1900 pontes vasco da gama (a 897 milhões de euros cada) ou o equivalente a 4.3 anos do PIB de Portugal (a 229 mil milhões de dólares/ano). Trocado por miúdos, se os EUA decidissem brindar cada cidadão português em nome da paz com soma equivalente, isso dar-nos-ia qualquer coisa como 240 mil dólares. Notem que este truque de bruxaria só inclui o investimento federal, não calculando custos indirectos como o apoio médico aos soldados feridos ou o aumento no preço do petróleo. Só por isso é que é tão optimista: a 200 biliões de dólares/ano, só para o Iraque, mais os custos da ocupação do Afeganistão, não será difícil ultrapassar os 3 biliões de dólares num espaço de 14 anos (2003-2017). Nem vale a pena tentar meter o Irão nestas contas, lá chegaremos.

Eu só sei que não me importaria com os 240 mil dólares. Em nome da paz, claro.

(Hoje houve manifs nas principais cidades americanas)
(Entrevista de Joseph Stiglitz à Rolling Stone)

Um apoio visual, tirado de Crooks&Liars:


Isto são 9 milhões de dólares, à escala humana, e juntando cada nota de dólar.E isto são 315 biliões de dólares. O pontinho preto no canto é a figura anterior. Esta figura vezes 7 e terão a massa física do dinheiro gasto na guerra.

23 outubro, 2007

Verde menos verde não há

O preço do arroz poderá subir 50% nos próximos dias. Com o aumento do preço dos combustíveis, a associação nacional dos industriais de arroz, realça o facto do seu preço ter subido 50% no último ano e responsabiliza a subida acentuada do preço do petróleo que tornou cereais, como o milho e o trigo, "interessantes" para a produção de biocombustíveis, uma alternativa energética aos produtos petrolíferos.

A notícia passou quase despercebida, mas será apenas a primeira de muitas. A estratégia da União Europeia passa por garantir que, até 2020, 10% de todos os combustíveis serão “verdes”. Em Portugal, o governo quer garantir 10% nos transportes já em 2010. Para conseguir esse valor, tem já a funcionar um generoso pacote de incentivos fiscais às oleaginosas plantadas no nosso país para alimentar as 2 refinarias "verdes" que estão a ser construídas.

E, no entanto, os erros dos outros países estão à vista, provando que esta estratégia tem tanto de imprudente como de suicidária. No México, a produção intensiva de milho para abastecer o mercado dos EUA levou à subida em 400% deste cereal fundamental para a alimentação. A consequência foi desastrosa e levou à rápida revolta dos mais pobres, e mais afectados com a subida em flecha da tortilla, a sua tradicional base alimentar .

Para além da hiperinflação dos produtos alimentares, a tão publicitada energia "verde" tem pouco de energia e ainda menos de verde. O potencial energético dos agrocombustíveis (a terminologia mais correcta) é ínfimo, como já foi reconhecido pelo OCDE, e a sua produção obriga a regimes intensivos de monocultura, obrigando ao aumento do espaço físico dedicado à agricultura, diminuindo a biodiversidade e aumentando a utilização de fertilizantes muito pouco verdes. A União Europeia, no mês passado, acabou com os terrenos dedicados ao pousio para responder à crescente procura de cereais. A produção em massa do óleo de palma já causou a devastação de grandes extensões de florestas na Colômbia, Equador e Indonésia e Malásia. (relatório da Unesco).

Os combustíveis "verdes" têm tudo para ser uma tragédia ambiental, social e económica. O interesse da UE e dos EUA nesta fonte energética - de que são os principais defensores, juntamente com o Brasil - tem muito pouco a ver com a defesa do ambiente. Convém não esquecer que três quartos das reservas de petróleo ficam na zona mais instável do planeta. É preciso diminuir a dependência das maiores economias de uma fonte de energia que está situada sobre o barril de pólvora em que se tornou o Médio Oriente. Os agrocombustíveis podem ser produzidos em qualquer lugar que tenha espaço, muito espaço para a plantação de cerais. São uma bomba ao retardador. Os preços na mercearia e supermercado vão ser o primeiro rastilho. Ou isso ou vamos todos subsidiar, com os nossos impostos, o maior logro ambiental das últimas décadas.

Sobre este mesmo tema, vale a pena ler: How biofuels coul starve the poor, na Foreign Affairs. Worse than fossil fuel, George Monbiot, no Guardian.

18 outubro, 2007

A marca de uma governação falhada


José Sócrates, na campanha eleitoral de 2005, diz que 7,1% de desemprego são a "marca de uma governação falhada" e de uma "economia mal conduzida". Em Outubro de 2007, com José Sócrates como primeiro-ministro, Portugal tem 8,3% de desempregados e, pela primeira vez em quase 30 anos, a taxa de desemprego é superior à de Espanha.
Post Zero de Conduta/Arrastão

16 outubro, 2007

O repórter ZdC sempre em cima do acontecimento

Hoje pela manhã, enquanto stressava com a vida, dei com este gang em celebrações. Da esquerda para a direita, Jim Heckman (Nobel Economia 2000), Roger Myerson (Nobel 2007), Gary Becker (Nobel 1992) e Bob Lucas (Nobel 1995). Dei-lhe os parabéns e voltei ao stress.

Para quem tiver tempo, aqui fica um escrito light (de 2003) do novel Nobel: "razões para aceitar limites ao poderio militar americano". Multilateralismo, comme il faut a um teórico de jogos.

E agora, volto para o buraco onde me enfiei aqui há uns tempos. Volto já...

05 outubro, 2007

Também existem os ignorantes desqualificados. Costumam gerir as empresas municipais

Uma tese de doutoramento, aprovada com distinção máxima na Universidade de Sevilha, indica que a maioria das empresas municipais “dão prejuízo, são financiadas de forma pouco transparente e estão sujeitas à vontade política”. O autor, o ex-deputado socialista Casimiro Ramos, coloca ainda em causa o elevado número de autarcas nos conselhos de administração, muitos deles a acumular salários.

"Uma coisa é nomear 'boys', outra coisa é nomear pessoas", respondeu o secretário-geral da Associação Nacional de Municípios, para quem o autor da tese "é um ignorante qualificado a associar o que não pode ser associado". Continuando a elevada finura da análise, Artur Trindade faz ainda o favor de explicar, a todos os "ignorantes" que questionam a utilidade e a gestão da maioria das empresas municipais, que estas podem ter a "máxima eficiência e dar prejuízo", uma vez que "uma coisa é a má gestão e outra os lucros".

Devia estar a pensar na Emel, em Lisboa. Uma empresa criada para recolher o dinheiro do estacionamento nas ruas da capital, uma galinha dos ovos de ouro que até um macaco com um computador à frente era capaz de pôr a dar lucro, mas que dezenas de ignorantes desqualificados conseguiram colocar numa eminente situação de falência técnica. Mal por mal, mais valia entregar o negócio aos arrumadores. Parecem ser mais eficientes.

03 outubro, 2007

Uma "dádiva ao patronato"

Como se já não chegasse ao Governo ver Bagão Félix dizer que as propostas apadrinhadas pelo governo para a revisão do Código laboral são uma “dádiva ao patronato”, dois dos elementos da comissão do Livro Branco demitiram-se. Em declarações ao Diário Económico, Júlio Gomes, um dos dois professores catedráticos demissionários, diz que “o relatório é muito desequilibrado e que as propostas “de maneira alguma favorecem os interesses dos trabalhadores”.

Uma dessas propostas consagra a abolição dos limites para o tempo de trabalho diário, passando o horário laboral a ser fixado anualmente e não ao dia. Com medidas destas, bem pode o Governo dizer que está a combater a diminuição da natalidade que não passará de mais uma medida sem efeito. Dizem-nos que temos que ser compreensivos e que, numa economia global, temos que ajustar os ciclos de produção às necessidades das empresas. Uma compreensão que parece faltar às creches e ao ritmo biológico das crianças que, certamente por má vontade, parecem lidar mal com horários de 14 horas seguidas. É uma pena, e será certamente um defeito da natureza, mas parece que as crianças ainda não nascem ensinadas no maravilhoso jargão da economia liberal.