26 novembro, 2007

Nacionalismo Oval

Depois de mais um sorteio para mais uma a fase de apuramento para mais uma grande competição internacional, logo surgiram vozes - o televisivo Rui Santos, por exemplo - a reclamarem a criação de duas divisões europeias que separassem o "trigo" do "joio", a fim de assim se evitar que as selecções de maior nomeada tivessem que realizar jogos cansativos que só servirão para cumprir calendário. Assim, a selecção de Portugal não deveria ter que jogar com os seleccionados da Albânia e de Malta.
Não vou discutir os méritos e os deméritos destas propostas. Mas vale assinalar que elas acompanham uma certa "sensibilidade geopolítica", sensibilidade que se mostra cada vez mais irritada com toda a conflituosidade política associada aos nacionalismos de leste e que começa agora a deixar para trás a euforia celebratória que antes brindara o estilhaçamento nacionalista da URSS e da Jugoslávia. (O mesmo, embora com contornos diferentes, sucede a respeito de Timor). Resta saber se estas propostas que defendem uma competição a "duas velocidades" têm cabimento no quadro das actuais tendências da economia mundial do futebol profissional, tendências marcadas pela lógica de expansão capitalista do jogo.
Acrescento, no entanto, um argumento que os patriotas lusitanos podem brandir a favor das "duas velocidades" e da tese da separação do "trigo" do "joio": é que assim sempre evitavam os empates entre o trigo e o joio, como aquele 1-1 obtido por Portugal na Arménia. Por outro lado, convém não menosprezarmos as vantagens das teses das "duas velocidades": seguindo estas teses, teríamos sido poupados, por exemplo, aos inúmeros elogios feitos à selecção portuguesa de rugby no recente mundial da modalidade.
Ressalvo, por fim, que nada me move contra o rugby. Pelo contrário. É porque a modalidade me interessa que ademais critico a onda nacionalista que sobre ela se abateu no Verão passado. Isto porque quer-me parecer que a forma como alguns jogadores e muitos propagandistas e marketeiros do rugby comentaram a performance da selecção portuguesa se limitou a reproduzir os estereótipos mais simplistas que pairam sobre uma modalidade complexa: a ênfase colocada em virtudes como a "honra", a "coragem" e a "bravura", cristalizadas no episódio da berraria do hino nacional, acabou por reduzir, uma e outra vez, a complexidade de um jogo inteligente à imagem primária da força bruta.
O cunho aristocrata da modalidade - sublinhado aqui e ali nos elogios ao amadorismo de grande parte dos jogadores - parece aliás dar-se bem com estas virtudes guerreiras. Assim é em Portugal mas também noutras paragens: pelas ruas de Buenos Aires, podia-se ver recentemente um outdoor da VolksWagen (que julgo também ter apoiado a selecção de rugby portuguesa) no qual se legendava a equipa de rugby argentina com um slogan que, mais coisa menos coisa, rezava assim: "animais que se comportam como cavalheiros".

9 comments:

Cláudia Ribeiro disse...

Mas esclarecam-me.. o senhor Rui Santos diz alguma coisa prestável?

Miguel Ângelo F. M. Valério disse...

Se essa ideia arrancado para o apuramento do Euro2008 que assim não estávamos lá...

arquivista disse...

Lembro-me que a ideia de duas divisões no campeonato europeu foi proposta já há mais de dez anos, por um treinador do Luxemburgo. Supostamente, os jogos com as melhores equipas do continente não ajudavam em nada estas pequenas equipas, pois, não tendo outro objectivo a não ser perder por poucos, desenvolviam sobretudo a defesa em detrimento do ataque...e não havia forma de sair do círculo vicioso. A não ser o de criar um campeonato europeu "B" e dar a estas pequenas equipas um objectivo credível.

Mas concordo com o José Neves: a lógica de exploração actual do futebol exige que uma selecção de topo faça pelo menos uns 8-10 jogos por ano, pelo que não é de crer que os modelos actuais sejam alterados. Quando muito, só se em benefício de equipas como a Inglaterra, cuja não qualificação foi já uma tremendo rombo financeiro no Euro 2008.

bloom disse...

caro zé, a citação correcta, aliás bastante conhecida, é a seguinte:Rugby is a thug's game played by gentlemen, whereas football is a gentleman's game played by thugs.

Zé Neves disse...

caro bloom

obrigado pela info. aliás, a tentativa histórica de oposição futebol - rugby tem na argentina um excelente laboratório de reactualização. quando tiver tempo escreverei sobre a minha experiência, há já alguns anos, de observação de um jogo de rugby entre a Argentina e a África do Sul, no estádio do Velez Sarsfield, em Buenos Aires. É claro que a vw, no entanto, não ia começar a ofender os adeptos do futebol na argentina...

you fucking animals disse...

Caro Zé,

separar "trigo" do "joio"? é simples: pessoas para um lado, Rui Santos para o outro.

(Isso até uma prof de Latim sabia)

Zé Neves disse...

olá

o jornalista rui santos, cujo livro editado no ano passado não tive a oportunidade de ler, terá por certo muitos aspectos discutíveis. mas também não gostava que se deixasse esquecida uma certa "verve" irreverente do dito que se manifesta - independentemente da razão que lhe possa assistir - nos conflitos que compra com as direcções do SLB, do FCP ou da FPF. E olhem que no "mundo do futebol", em Portugal, isso não será tão fácil como é no "mundo da política" ou no "mundo da cultura".

Anónimo disse...

福~
「朵
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