Jornais, televisões e blogues americanos discutem até à exaustão a comoção de Hillary Clinton, apresentada como um raro momento de exposição pessoal na sua campanha. O vídeo já está no top dos mais vistos no YouTube e arrisca-se a ser um caso de estudo sobre as espeficidades regionais na era da uniformização e globalização comunicacional. Para um português, que se habituou a ver o ex-presidente da República a chorar desalmadamente por causa da erosão da orla costeira ou de uma bola à trave num jogo da 1.ª Liga, o vídeo é uma desilusão completa. Chorar? Aquilo? Sabem lá do que é que falam.
No auge do autismo cavaquista, o então primeiro-ministro orgulhava-se de despachar os jornais em cinco minutos. Sócrates deve ir pelo mesmo caminho, pois só assim se pode compreender a sua afirmação de que "2008 será melhor que 2007, como 2007 já foi melhor do que 2006". 2007 foi um bom ano? Um dia antes das janeiras que cantaram para um animado primeiro-ministro, o Público indicava que a "situação financeira das famílias [está] tão má como no auge da crise ", um dia depois o Eurostat fez saber que Portugal foi um dos dois países europeus em que o desemprego subiu em 2007. 2008 será ainda melhor, garante José Sócrates, tentando esquecer-se de que o petróleo está nos 100 dólares, da crise financeira à escala mundial e que a economia americana se encontra em retração. A vida não melhora se nos esquecermos das dificuldades, o ano não corre melhor por não nos lembrarmos dos problemas.
No preciso momento em que alguns candidatos republicanos entram numa campanha para ver quem apresenta o discurso mais duro sobre a imigração, um insurgente foi buscar uma fantástica canção de Bruce Springsteen sobre os imigrantes. Como diz o Pedro Sette Câmara, elogiando o cosmopolistismo que só uma sociedade aberta aos imigrantes permite, "o verdadeiro rock irlandês vem de New Jersey". Aqui em cima, fica a visão do outro lado, a de quem arrisca tudo para atravessar oceanos e continentes à procura de condições dignas de trabalho e de vida. Pelo "verdadeiro rock irlandês": os Pogues no final da década de 80.
A Sara Figueiredo e a Andreia Brites andam às voltas com os livros e a literatura no espaço acolhedor do Cadeirão Voltaire. Vale a pena também passar pelo blogue do Sérgio Lavos, leitura regular na faculdade, agora reencontrado em alguns dos melhores auto-retratos da blogosfera portuguesa.
Segundo o Expresso, "Armando Vara vai manter o vínculo contratual com a Caixa Geral de Depósitos até conhecer o resultado das eleições para o conselho de administração do BCP". Mais vale um pássaro na mão do que dois a voar, deve ter pensado este diligente representante do carreirismo rosa. Não é que esta decisão altere substantivamente a questão de fundo, mas não deixa de ser esclarecedora sobre o carácter deste senhor. É inaceitável, e inconcebível, que três administradores da Caixa saltem, de uma assentada e sem nenhum período de nojo, com todos os planos estratégicos e de expansão do banco público para o seu rival directo. Vara vai estar a discutir o futuro estratégico do BCP, a apresentar propostas e soluções, enquanto continua a ser um trabalhador da Caixa (resta saber se continua a receber o ordenado) Inacreditável é que, como representante do único accionista da Caixa, o Governo ainda não tenha posto este senhor no único sítio que ele merece. A pouca vergonha tem limites. Ou devia ter.
O 31 da Armada e o maradona envolveram-se numa polémica a propósito do encerramento dos centros de saúde. Diz o Pedro Marques Lopes que conduz à desertificação do interior e que “sem a ocupação do território a soberania sobre este deixa de ter significado prático”, responde o maradona que “a soberania exerce-se não com pessoas mas com a aplicação das leis”. É uma boa resposta, infelizmente posta em causa pelo encerramento de tribunais e postos de GNR no interior, mas o argumento definitivo ainda estava para aparecer. Diz o maradona que, se no Canadá e na Suécia é possível fazermos milhares de quilómetros só encontrando renas* pelo caminho e sem vislumbrar vivalma e centro de saúde que se preze, porque razão não podemos fazer o mesmo no nosso país? Como é um rapaz modesto ficou-se por aqui. É pena. Podia ter lembrado ao Pedro Marques Lopes o exemplo do Brasil. Alguém imagina os quilómetros que uma pessoa tem que percorrer na Amazónia para encontrar um tribunal, posto de polícia ou centro de saúde? E na Austrália, meus amigos, a mesma coisa. É possível andar-se dias só a ver kangurus ou cobras do deserto. Se funciona com esses países, porque não podemos nós encerrar centros de atendimento que se limitam a ter 40 mil consultas por ano? O Presidente da República é que tem razão. As populações não entendem a política da saúde. Tivesse o ministro o brilho retórico do maradona e estava a questão resolvida.
* Esperamos que, depois de fechados os centros de saúde, escolas, tribunais, estações de correio, ramais da CP e postos da GNR, o Governo providencie uma renas como na Suécia. Já que o interior do país pode ser encarado como uma reserva natural, sempre era bom termos uns animais engraçados para mostrarmos aos nossos filhos nas férias.
Agora que se tornou claro que foi o governo francês, liderado pelo novo ídolo das nossas direitas, que obrigou ao cancelamento do Dakar por causa de um comunicado de uma organização da Al Qaeda, estranho não encontrar nenhuma crítica à cobardia do namorado de Carla Bruni nos blogues que não pararam de zurzir na falta de coragem e no capitulacionismo de Zapatero perante os terroristas quando este retirou as tropas espanholas do Iraque. A coragem dos nossos guerreiros de sofá tem os seus dias. E as suas causas.
De repetente, e depois do cancelamento da edição deste ano, parece que metade do país acordou preocupado com o futuro do Dakar. Têm andado distraídos. O Dakar já estava morto há muitos anos e foi o GPS que acabou com ele. No dia em que as diferenças nas etapas de centenas de quilómetros no deserto deixaram de se medir em horas e em dezenas de minutos para passarem a ser decididas ao segundo, o Dakar foi perdendo interesse e seguidores. Perdeu a aura de aventura e de teste à resistência do indivíduo, já para não falar na incerteza competitiva até à etapa de consagração nas praias do Senegal. Passou a ser um rally. No deserto, é certo, mas até isso passa a ser secundário quando uma máquina nos aponta o caminho com a mesma precisão e certeza com que o faz nas ruas de Londres ou Berlim. Tornou-se uma prova igual a tantas outras e, portanto, periférica. Não foi por acaso que foi caindo aos trambolhões de Paris, Barcelona até chegar a Lisboa (que nem aparece no nome da prova...) e aos bolsos abertos do nosso governo e Santa Casa da Misericórdia.
Esperança e mudança. Fartos e cansados da política do medo seguida pelo sistema político de Washington durante a administração Bush, as palavras mais usadas por Obama no seu impressionante discurso de vitória no Iowa arriscam-se a ser o eixo da campanha presidencial norte americana. Não por acaso, Hillary e Giuliani, os dois candidatos mais conotados com o "sistema", foram os grandes derrotados de ontem. O problema de Hillary não foi tanto ter perdido para Obama, mas ter ficado atrás de John Edwards. Permite a este criar o momento que o legitima como um potencial candidato ganhador e que lhe permite continuar a recolher dinheiro para o manter na corrida. Ontem teve um excelente discurso, bem longe do fulgor retórico e oratório de Obama, mas provando que é o candidato mais à esquerda no campo democrata. O João Rodrigues e o Nuno Teles já tinham chamado a atenção para as suas propostas - principalmente o plano de saúde e a retirada do Iraque - e para o apoio que tem recolhido entre os economistas de esquerda. Ontem voltou a falar de um dos temas que tem destacado nas últimas semana, criticando a "corporate greed" que tem conduzido ao aumento da desigualdade social nos EUA. Edwards pode ser a surpresa no campo democrata, afirmando-se definitivamente como um nome a ter em conta. Ainda bem. Obama parece cada vez mais ser aquilo que tanto critica nas suas intervenções, dizendo aquilo que as pessoas (e os seus financiadores) querem ouvir.
PS: Com um correspondente especial nos EUA a tempo inteiro, e um intermitentente entre Angola e Chicago, o Zero de Conduta vai acompanhar as eleições com especial atenção. Na barra da direita, já se pode encontrar o link para todos os textos sobre a Indecisão 2008. Serão muitos.
Portugal tem o mercado publicitário mais distorcido da Europa. Como em nenhum outro país, os anunciantes concentram o seu dinheiro na televisão (70% do volume de anúncios) e só não o fazem de uma forma mais intensa porque existem limitações legais que o impedem. A abertura do concurso para mais um canal de televisão em sinal aberto vai reforçar essa tendência, tornando ainda mais complicada a já debilitada situação financeira da maioria dos títulos da imprensa escrita. Uma comunicação social sem recursos e em permanente guerra para captar audiências e anunciantes não deveria interessar a ninguém, jornalistas incluídos. Conduz à degradação da informação. Ao fim do jornalismo de investigação. À diluição da autonomia dos seus profissionais. À diminuição da independência face ao poder politico e económico. À tabloidização de toda a imprensa, incluindo a de referência.
Abrir um canal televisivo em sinal aberto não é o mesmo que abrir uma padaria ou fábrica de curtumes. Tem profundas implicações no funcionamento do sistema democrático. A revolução não será televisionada, já diz a famosa canção dos anos 70, mas a verdade é que a democracia passa cada vez mais pela televisão. Para o bem e para o mal, a comunicação social é o principal mediador entre o sistema politico e a população. Não é por acaso que é nos liberais EUA que encontramos a legislação que mais entraves coloca à concentração da comunicação social. Por cá, contudo, o argumento liberal é que este licenciamento é um intrusão do Estado no normal funcionamento do mercado que deveria ter o direito de criar as estações em sinal aberto que entendesse. Dizem-no como se o licenciamento público das televisões generalistas fosse uma originalidade nacional e não ocorresse o mesmo em todos os outros países. Ao contrário do que argumentam, uma comunicação social sem meios de subsistência, e com profissionais cada vez mais precarizados, é que se torna refém de todo o tipo de interesses. A começar pelos mais fortes. Os do governo e os dos grandes grupos económicos.
Perante as críticas da oposição sobre os miseráveis aumentos das pensões, o Governo respondeu com um comunicado onde garante que 90% dos pensionistas mantêm o poder de compra. Se a taxa de inflação for a que calcula Bruxelas (2,7%) nem isso é verdade, mas a reacção do Governo é exemplar porque nos revela que:
90% dos pensionistas têm reformas abaixo dos 611 euros.
O Governo desistiu de combater a pobreza, renunciando a recuperar o poder de compra das centenas de milhar de idosos que vivem com menos de 300 euros por mês.
A manutenção do inexistente poder de compra dos mais pobres dos mais pobres é quanto basta ao Governo para se congratular com os aumentos concedidos a 1,6 milhões de pessoas que recebem menos do que o salário mínimo nacional.
Vale a pena ler esta entrada do Daniel Oliveira sobre a absurda hiperprodução legislativa que leva o governo a criar um decreto lei em que se definem as regras para dar nomes às escolas.
O inspector geral da ASAE diz que só fumou no restaurante do casino porque, no seu entender, existe um conflito entre a lei do tabaco e a do jogo que precisa ser clarificado. Enquanto a tal clarificaçãozinha não aparece, o responsável máximo pela fiscalização do cumprimento da lei do tabaco vai regendo o seu comportamento pelo disposto na lei do jogo. Estamos conversados.
"Mil oitocentos e noventa e nove soldados dos EUA e 18,610 civis iraquianos foram mortos na Guerra do Iraque. Oitenta por cento dos Iraquianos declararam “ataques perto” e estimou-se que 90% dos artistas dos artistas do Iraque tinham fugido do país ou sido mortos. A Halliburton anunciou 13 mil novos postos de trabalho, e o Presidente George W. Bush foi submetido a uma colonoscopia. Na Venezuela, o Presidente Hugo Chavez abraçou o Presidente Mahmoud Ahmadinejad do Irão. “Bem-vindo, combatente de causas justas”, disse Chavez. O Senador Barack Obama apareceu de tronco nú no especial “Beach Babes” da People’s Magazine. A presidente da Casa dos Representantes Nancy Pelosi proibiu o fumo no salão do Capitólio, e a Senadora Hillary Clinton disse “nós queremos continuar a ser capazes de exportar democracia, mas entregues em pacotes digeríveis.” O Viagra fez 15 anos. Fogos espalharam-se do Norte de Los Angeles ao sul de San Diego, e cientistas da Universidade de Nova Iorque apagavam experiências assustadoras da memória de ratos. O primeiro congressista Muçulmano foi jurado com o Corão que pertencera a Thomas Jefferson. Esperava-se que as vendas anuais da Taser International chegassem aos 90 milhões de dólares."
Esta frase resume o pensamento democrático de Cavaco Silva. Depois de nos ter garantido que “duas pessoas com a mesma informação e com a mesma boa-fé chegam necessariamente às mesmas conclusões”, Cavaco Silva volta a provar a sua evidente aversão à ideia de que a democracia se fortalece com o confronto de opiniões distintas. Bem pode apelar ao reforço do diálogo e à diminuição da crispação social. É tudo instrumental. E com regras bem certinhas. As da resignação democrática.