31 janeiro, 2008

Media madness


Jon Stewart e o seu tema preferido: a “independência” das narrativas jornalísticas na política norte-americana. Um exercício que pode facilmente ser transposto para qualquer acto eleitoral, em qualquer parte do mundo. Por cá, basta recordar a influência que teve nas últimas presidenciais uma certa fotografia de Mário Soares na capa de um semanário.

29 janeiro, 2008

Com a saúde não se brinca

Depois de semanas a garantir que o problema não era a política da saúde, mas a má comunicação da mesma, Sócrates cedeu à oposição e mudou de responsável pela pasta. E logo na semana em que Correia de Campos esteve por três vezes na SIC, e deu uma entrevista ao Expresso, a garantir que continuaria no seu lugar até ao fim da legislatura. Ironicamente, foi remodelado na véspera de se deslocar ao Parlamento para apresentar já famoso plano de requalificação das urgências.

Dificilmente o timing podia ser pior para o Governo. Mudar de ministro no meio de uma barragem da oposição, do próprio partido e de uma contestação popular sem precedentes é coisa para tirar o sono a qualquer governante. Mas não havia outra solução. Há muito que o Governo tinha perdido o controlo político e já não havia política de redução de danos que valesse a Correia de Campos. O ministro da Saúde, num certo sentido, teve azar. Porque o problema das populações não foi (só) levarem-lhe o centro de saúde. É que antes já lhe tinham tirado a escola, a GNR, os CTT e o tribunal. Correia de Campos chegou tarde à centralização dos serviços do Estado nos centros urbanos do litoral. Chegou tarde e pagou caro, talvez porque, como diz a Teresa Ribeiro, "com a saúde não se brinca".

Culpa do ministro ou não, há muito que os dados estavam lançados e os recentes casos - como o do telefonema da operadora do INEM para os bombeiros de Alijó - apenas aceleraram o passo. Sócrates pode dizer o que quiser amanhã na sua deslocação ao Parlamento. Hoje teve uma das suas maiores derrotas. Cedeu, em toda a linha, à oposição parlamentar e à ala esquerda do PS, personificada em Manuel Alegre. Que o tenha feito a pouco mais de um ano para as eleições não é um pormenor.

O crime (desorganizado) compensa

A ausência de organização em rede de comunidades de imigrantes ilegais está a impedir o Serviço de Estrangeiros e Fronteiras de desmantelar eventuais estruturas suspeitas no Algarve, disse hoje o director regional do organismo.

De acordo com Van Der Kellen, o "grande erro" das comunidades de Leste foi o de transportar para Portugal as estruturas de «peso», sendo mais fácil a detecção das hierarquias e de arranjar provas para levar a tribunal.

Uma resposta incoveniente


Questionado pelo líder parlamentar do PP, sobre a política e micro-política da CMVM na detecção da crise do BCP, Teixeira dos Santos saiu-se com a última coisa que o PP queria ouvir:"O senhor deputado não espera que, neste momento, e passados estes anos todos, tenha aqui presente na minha memória todas essas informações. Até porque não tenho por hábito fotocopiar, ou digitalizar, os arquivos antes de sair dos lugares. Diogo Feio nem levantou os olhos da mesa.

Uma pergunta inconveniente

Toda a gente fala nas corajosas reformas de Correia de Campos. Sinceramente, sem ser o encerramento dos Serviços de Atendimento Permanente, alguém me consegue dizer de que reformas estamos a falar?

Sim, é isso mesmo que se costuma dizer quando o Governo cede à oposição.

O porta-voz do PS, Vitalino Canas, diz que o governo sai reforçado com a remodelação ministerial.

Alguém se enganou no número de telefone

Há dois António Pinto Ribeiro. Um, é o ex-programador da Culturgest e um dos princiais especialistas em política da cultura. O outro é advogado, especializado na defesa dos direitos humanos. O Governo nomeou António Pinto Ribeiro para ministro da cultura. O advogado.

Os amigos são para as ocasiões

O mesmo Governo que reintroduziu os benefícios fiscais para os PPR, reduziu o remuneração dos certificados de aforro pela segunda vez no espaço de 18 meses. Uma medida que prejudica 700 mil portugueses, essencialmente idosos e com pequenas poupanças, que compraram os certificados confiando na palavra do Governo e se vêm agora, de um dia para o outro, com um produto que perde 10% de rendimento a médio prazo. Será normal que uma parte significativa dos pequenos aforradores emigrem para os fundos da banca, que se vê agora com produtos similares e melhor remuneração do que as novas taxas dos certificados de aforro, mas onde vão deparar com um sem número de produtos financeiros com um risco muito mais elevado. Como estamos a falar de pessoas com um escasso conhecimento dos produtos financeiros existentes, e os funcionários das agências bancárias têm metas a apresentar, será muito provável que alguns dos reformados acabem por investir as suas poupanças num “fundo fantástico na Papua Nova Guiné”. Uma sondagem do Eurostat, hoje citada no Diário Económico, diz que “só 10% dos portugueses estão optimistas com a economia”. Bate certo. Devem ser os accionistas da banca.

28 janeiro, 2008

Invertebrado

Quem ainda tinha dúvidas sobre a natureza da clique Xanana Gusmão- Ramos Horta, deve tê-las dissipado totalmente com a presença do primeiro no funeral do ditador responsável pela morte de 200 mil timorenses e com as declarações do pateta alegre que se tornou famoso pelo seu lacinho. O porta-voz do Governo de Timor-Leste garante que Xanana Gusmão foi ao funeral do ex-presidente "como expressão de reconhecimento e gratidão do povo de Timor-Leste a Suharto por aquilo que fez de positivo no país durante os 24 anos de ocupação indonésia". As palavras são tão chocantes e ignóbeis que tornam difícil qualquer reacção que não seja temer pela sua sanidade mental. Mas há muito que Xanana passou a fronteira da falta de vergonha e dignidade. Era uma questão de tempo para que o seu carácter ficasse à vista de todos. Não precisava era de ser de uma forma tão crua e despudorada.

"Há dias de sorte" nos bombeiros de Mafamude


"A falecer é agora... porque os mortos sempre têm p'ra onde ir..., enquanto o governo não manda fechar os cemitérios"."Eu só não faleço hoje porque já tenho um compromisso..."

Um Governo de palavra

Um ano antes de expulsar os imigrantes marroquinos, o Governo alterou a lei da imigração. Vale a pena ler a exposição de motivos da Proposta de Lei n.º 93/X:


"(...) Por fim, reforça-se a luta contra a imigração ilegal, através da adopção das seguintes medidas: (...) Prevê-se a concessão de autorização de residência a vítimas de tráfico de pessoas e de acções de auxílio à imigração ilegal que colaborem com a justiça. Este regime é essencial à perseguição das redes de tráfico de pessoas, sem contudo adoptar uma concepção utilitarista, na medida em que em primeira linha visa a protecção do estrangeiro enquanto vítima de um crime grave de violação de Direitos Humanos. Todo o regime de concessão de autorização de residência a vítimas de tráfico de pessoas assenta no reconhecimento de que tal prática deve ser entendida enquanto atentado inaceitável aos direitos humanos, colocando a vítima no âmbito de uma protecção muito específica por parte do Estado. Tal contribuirá em grande medida para tornar menos atractivo o território nacional enquanto país de destino de pessoas traficadas e, espera-se, para diminuir, em Portugal, o número de pessoas traficadas, em especial de mulheres." (via Aldeia Blogal)

Começa a ser congénito: não cumpre as promessas e não liga às leis que apresenta.

27 janeiro, 2008

Que país é este?


Mais vale uma ambulância que leve rapidamente o paciente a uma verdadeira urgência, do que serviços que não conseguem fazê-lo com a qualidade necessária. Tem sido esta, invariavelmente, a resposta de Correia de Campos a todos quantos todos quantos têm criticado o encerramento de 30 SAP´s e urgências hospitalares. É por isso que a transcrição da conversa entre o INEM e os bombeiros de Favaios e Alijó demonstra, de uma forma destrutiva, a falência do plano do Governo: não só não se preocupou em abrir novas urgências nos centros de saúde ainda a funcionar, como continua sem garantir a ambulância.

E fica ainda o retrato de um país esquecido, abandonado e onde as ambulâncias mais próximas ficam a 60 quilómetros e demoram 1h20 a chegar. Bem pode o Governo, seguindo a moda do momento, dizer que é um problema de comunicação. Pelo contrário, há muito que os portugueses perceberam de uma forma exemplar a política do Governo para a Saúde. Não há nenhum plano de requalificação, tudo o que existe e tem sido feito tem apenas um fim: conter as despesas do Estado. Agora, como já se viu ontem no Expresso, multiplicam-se os comentadores a exigir que a oposição apresente alternativas. Não se sabe bem porquê, visto que o SNS é uma das raros matérias em que os portugueses não têm razões para temer a comparação com os indicadores internacionais de referência. Em 30 anos, o SNS catapultou um país com números do terceiro mundo para indicadores de referência que nos colocam à frente de alguns países escandinavos. Em que área da economia, ciência ou investigação é que isso acontece? Mesmo no privado. Que empresa portuguesa é que pode dizer que está entre a elite mundial na sua área?

Mas, querem uma alternativa? Não é muito difícil. O OE para 2008 consagra 380 milhões de euros para empresas de consultoria técnica e de comunicação. Uma absurda duplicação de recursos de um Governo que conta com centenas de assessores e técnicos nos ministérios, institutos, serviços centrais ou regionais. O Estado paga a assessores cuja única tarefa é adjudicar serviços a empresas externas. Podiam começar por aí e cortar mais de 90% nessa despesa de propaganda e auto-justificação das decisões políticas do Governo. Ficava mais barato do que desertificar o país e deixar as populações a mais de uma hora de um serviço de pré-emergência hospitalar. E podiam ter a certeza que os portugueses percebiam a política.

26 janeiro, 2008

A lei era só a brincar, não me digam que acreditaram?

Quando alterou a lei de imigração, há coisa de um ano, o partido socialista introduziu uma série de mecanismos legais para proteger as vítimas do tráfico de seres humanos. Na primeira oportunidade que teve para aplicar a sua lei, e podendo conceder uma autorização de residência aos 23 marroquinos que denunciaram as redes ilegais que os exploraram, expatriou-os para Marrocos, onde ainda se encontram detidos com criminosos de delito comum. Foi esse o prémio por terem colaborado com as autoridades nacionais: serem recambiados, às escondidas dos seus advogados, e entregues à mercê dos criminosos que acabaram de denunciar. Deve ser a isto que o Governo chama acolhimento com humanismo.

24 janeiro, 2008

Pergunta quem paga


Das 2275 perguntas efectuadas aos candidatos presidenciais americanos nos cinco principais programas televisivos, apenas 24 estão relacionadas com as alterações climáticas.O aquecimento global apenas é referido por 3 vezes - tantas como as questões colocadas aos candidatos sobre ovnis e a vida noutros planetas! O balanço podia apenas ser revelador da forma como a imprensa se concentra cada vez mais em questões secundárias, o que é verdade, mas é bem mais revelador do que isso. Nos debates promovidos pela CNN/Youtube a omissão é total: as questões ambientais não existem. Uma lacuna que se compreende melhor quando se percebe que o principal patrocinador dos debates é o lobby das empresas de extracção de carvão. Tudo gente simpática que, no seu site, se orgulha de pretender gastar 35 milhões de dólares na campanha presidencial para melhorar a imagem pública das centrais eléctricas a carvão e apoiar os candidatos que se opõem a medidas legislativas para diminuir a emissão de CO2.

23 janeiro, 2008

Lost in translation

Questionado sobre o contrato com a Cunha Vaz & Associados, o secretário-geral do PSD não quis responder e avisou:"Não vou falar, nem hoje nem no futuro, mais nada sobre a vida íntima desta relação"

Originalidades da vida política portuguesa

Há vários anos que todos os partidos defendem a prescrição de medicamentos em unidose nas farmácias. Estranhamente, quando chegam ao governo, encontram logo uma série de "estudos técnicos" que desaconselham esta medida.

A comunicação para esconder o vazio

Parece imperar a ideia, em certos quadrantes, de que a solução para todas as questões políticas com que se defrontam os governos e partidos se resolvem com inovadoras estratégias de comunicação. Luís Filipe Menezes levou essa ideia até onde nunca ninguém tinha chegado e contratou uma agência para centralizar toda a comunicação e imagem do partido. Sintomaticamente, no preciso momento em que surgem as primeiras criticas à vacuidade da sua liderança, avança com a mesma empresa para tomar conta da comunicação do grupo parlamentar. O propósito é claro. Controlar a casa, calando as vozes incómodas do grupo parlamentar, o que rapidamente foi percebido e recusado pelos visados.

Porque reduz a autonomia política da direcção e o controle democrático dos filiados de um partido sobre os processos de decisão politica, todo o contrato do PSD com a Cunha e Vaz é bastante questionável. Mas a sua extensão aos deputados, principalmente pelo que se entrevê nos seus pressupostos, entra num ponto sensível que não convém menorizar. “É provável que achem esta tentativa de pôr ordem no caos uma limitação da liberdade de expressão dos representantes eleitos da Nação”, diz o João Villalobos, num post em que elogia a decisão de Menezes. Claro que sim, João. Bem ou mal, os portugueses elegeram deputados, não votaram na Cunha e Vaz associados. Quando põem uma cruz no boletim de voto não a podem castigar - e esse não é um pormenor. É inimputável e muito pouco escrutinável. Caso não avance com esta medida, diz o João Villalobos, “ficamos a perceber que [os deputados] continuam a preferir brincar às oposições”. Desculpa lá, João, mas não é isso que o Menezes, com a prestimosa ajuda de Cunha e Vaz, anda a fazer há uns meses valentes?

22 janeiro, 2008

Anyone but Bush

(Dados até 2006. Informação mais detalhada no Wall Street Journal)
A verdade é que para demasiada gente, não importa quem vai entrar na Casa Branca. O que importa é quem vai sair: Bush. (...)Tal como aconteceu com Bill Clinton em 2000, não há neste momento quem não tenha queixas contra Bush.

A tese de Rui Ramos é simples. Todas as eleições nos EUA são um plebiscito ao presidente cessante. O que está a acontecer com Bush este ano não tem nada a ver com a natureza das suas políticas, mas sim com a forma como a política norte-americana está estruturada. É sempre assim, e já o mesmo tinha acontecido anteriormente com Clinton. Nada mais falso. Como se pode ver no gráfico acima, que agrega as taxas de popularidade de todos os presidentes norte-americanos desde o pós-guerra, Clinton foi o único que abandonou o cargo com uma taxa de aprovação superior à do dia que tomou posse. Desde que a Gallup faz estes estudos, aliás, ninguém abandonou o cargo com um popularidade tão elevada. Mas Rui Ramos recorre a outra analogia para defender Bush. Só podemos analisar o seu legado daqui a umas décadas, pois o que agora se diz de Bush já antes se dizia de Reagan, a quem foram precisos 20 anos para "toda a gente reconhecer virtudes a um outro “cowboy estúpido”, cuja presidência aliás também terminou de rastos". Não sei, novamente, onde é que Rui Ramos foi arranjar estes dados, mas está outra vez errado. Reagan acabou a sua presidência com índices de popularidade próximos dos 60%, sendo mesmo o presidente republicano mais popular das últimas seis décadas, enquanto Bush anda pelos vinte e pouco por cento (abaixo de Nixon quando este foi destituído).

Compreende-se o embaraço dos guerreiros de sofá que apoiaram Bush na mentira do Iraque, e em sucessivos abusos em nome da "guerra ao terror", com a rejeição popular sem precedentes de que goza o "seu" homem. De resto, a forma como Rui Ramos recorre à mistificação mais absurda - ignorando ou "esquecendo" todos os dados conhecidos - é bem reveladora da forma como, contra todas as evidências, continuam agarrados à defesa acrítica do homem que um dia aterrou nas Lajes para abraçar Durão e envolver meio mundo numa mentira sem nome.

Vergonhoso

O Governo tem toda a legitimidade legal para expatriar os 23 cidadãos marroquinos, como também a teria se tivesse escolhido conceder uma autorização de residência (existe uma cláusula nesse sentido para quem colabora com as autoridades, fornecendo elementos que possam levar ao desmantelamento das redes ilegais de imigração). Escolheu a primeira opção, a meu ver erradamente. Mas o que não devia fazer, e fez, é começar o processo de expatriação sem avisar os advogados. É absolutamente inaceitável e viola as mais elementares regras de um Estado de direito.

21 janeiro, 2008

O buraco negro da lógica

Perante as notícias que dão conta da ruptura total das urgências de Faro, o ministro Correia da Campos reconhece o problema, anuncia um novo hospital para daqui a quatro anos, mas adverte que o hospital em "Faro tem um problema que torna difícil o seu funcionamento perfeito, que é a sua sazonalidade". "Tem uma parte do ano, dois ou três meses, em que a sua população triplica". Declarações que, certamente, devem ter sossegado todos os algarvios. Se em Janeiro é como é, com macas e macas a amontoarem-se no corredor, estará o ministro a querer dizer que em Agosto vai ser três vezes pior? Correia de Campos, não há dúvida, desafia mesmo todas as regras da lógica.

Indústria do tabaco preocupada com a má imagem dos livros

Uma pequena editora britânica está a publicar, em pequenos livros de bolso com um grafismo semelhante ao dos maços de tabaco, uma selecção de contos e pequenas histórias de alguns dos principais nomes da literatura mundial. Kafka, Tolstoi, Conrad ou Stevenson, são alguns dos autores que viram algumas das suas obras "embrulhadas" neste visual distintivo. Uma verossimilhança que preocupa uma das maiores empresas tabaqueiras, a British American Tobacco, que exige a retirada imediata de circulação d´"As neves de Kilimanjaro", de Hemingway. Diz a empresa que o grafismo da obra em questão é demasiado similar à da imagem distintiva da Lucky Strike, podendo levar o público a pensar que a empresa apoiou, patrocinou ou está de alguma forma relacionada com os livros editados, uma associação "que pode diminuir a confiança na marca Lucky Srike". Compreende-se. A pessoa comprar um livro, pensando que está a comprar uma maço de tabaco, e reparar que os seus pulmões não se ressentem da compra é uma daquelas coisas que destrói a a confiança e o bom nome de uma marca. Isto há coisas...

20 janeiro, 2008

O bom

As notícias que dão conta da desumanidade das juntas médicas são manifestamente exageradas. Ontem mesmo, em carta enviada ao Público, Paulo Teixeira Pinto indica que passou “à situação de reforma em função de relatório de junta médica”. Certamente ainda mal refeito da forma como foi corrido do BCP e da Opus Dei, este banqueiro de 46 anos foi considerado inapto para o trabalho, apesar de já ter arranjado um cargo numa consultora financeira.

PS: Teixeira Pinto nega ter recebido 1o milhões de euros de "indemnização pela rescisão do contrato” com o BCP, garantindo que apenas recebeu a “remuneração total referente ao exercício de 2007”: 9.732 milhões de euros em "compensações" e "remunerações variáveis". Nada como ser preciso nestas coisas. E pedir ao Estado, através da tão vilipendiada Segurança Social, que lhe conforte as agruras da vida.

o mau

Ana Maria Brandão, portadora de cervicalgia e lombalgia degenerativas que a mantêm na cama vai para mais de quatro anos, soube a semana passada que a Junta de Freguesia onde trabalha lhe vai deixar de pagar o ordenado. Depois da Caixa Geral de Aposentações lhe ter negado a reforma antecipada, os 400 euros que recebia da Junta de Freguesia de Vitorino de Piães eram a única forma de sustento de uma mulher que gasta mais de 200 euros mensais em medicamentos.

e o vilão

Em Novembro do ano passado, depois de ter sido instada pela Caixa Geral de Aposentações a apresentar-se ao trabalho, Ana Maria Brandão regressou à junta de freguesia, tendo cumprido o horário laboral sentada numa cadeira e encostada a uma parede, sempre acompanhada pelo pai. Nesse mesmo dia, e perante a exposição mediática do caso, o ministro das Finanças, Teixeira dos Santos, anunciou que ela iria entrar novamente de baixa médica. Não tendo conseguido encontrar uma Junta tão compreensiva como a que avaliou o temente Paulo Teixeira Pinto, e apesar de não lhe terem mandado fazer nenhum exame, Ana Maria Brandão foi novamente considerada apta. Agora, nem recebe da Caixa Geral de Aposentações nem pela Junta de Freguesia. Deve ser a isto que se referem quando falam na perda da autoridade do Estado. Já nem uma palavrinha do ministro das Finanças livra os funcionários públicos.

19 janeiro, 2008

As regras da casa

Ontem, na Assembleia da República, Vítor Constâncio declarou que uma das suas principais preocupações é garantir a estabilidade do sistema financeiro, criando as condições para rácios de solvabilidade acima dos 8%. A frase resume o entendimento que o Governador do Banco de Portugal faz do seu cargo. Mais do que o regulador e fiscalizador do sistema financeiro, vê-se como uma espécie de bastonário dos banqueiros. Dois exemplos. O arredondamento das contas, sempre a favor dos bancos, que só terminou após intervenção legislativa, ou a contabilização dos dias do ano com critérios diferentes consoante se trate de juros a favor do banco ou do cliente. Esta originalidade nacional persiste, mesmo havendo um decreto governamental para lhe pôr cobro há vários meses, porque o Banco de Portugal continua a fechar os olhos a esta prática lesiva dos direitos dos clientes. Não se percebe portanto a estranheza com a forma como Constâncio, sabendo há vários anos do que algo de estranho se passava no BCP, nada fez para o evitar. A complacência com a arbitrariedade da banca faz parte das regras da casa. Garantir a solvabilidade, acima de tudo, como o próprio reconhece. Desta vez deu mais nas vistas, mas não vale a pena armar-se em virgem ofendida. Constâncio tem sido o rosto da condescendência perante um sistema financeiro que entende que todos os métodos são legítimos para sacar uns cêntimos, que se convertem em milhões, aos seus clientes. Até mudar os dias do ano a seu favor.

18 janeiro, 2008

Morrer de tédio

Camilo Castelo Branco costumava ridicularizar Almeida Garrett, dizendo que só mesmo no Frei Luís de Sousa é que se conseguia encontrar alguém que tivesse morrido de vergonha. De vergonha não constam muitos registos médicos, é certo, mas parece que há quem acredite que o tédio pode matar. Não há outra explicação para a prestação de Vitor Constâncio na interminável audição que ainda está a decorrer na Assembleia da República sobre o "caso BCP". O tom monocórdico, arrastado e vazio parece programado para adormecer os deputados, jornalistas e quem o está a seguir na televisão. Ou, pelo menos, os que ainda conseguem contar 2+2 depois de ouvir as suas declarações.

"Missão Impossível 4:À procura dos neurónios"

"When you're a Scientologist, and you drive by an accident, you know you have to do something about it, because you know you're the only one who can really help... We are the way to happiness. We can bring peace and unite cultures."

À atenção do João César das Neves e da Patrícia Lança

Um dos principais candidatos presidenciais do partido republicano, Mike Huckabe, comparou a homossexualidade à bestialidade e o aborto à escravatura, defendendo a revisão da constituição dos EUA para que esta respeite e defenda os "mandamentos de Deus". Esqueceu-se, talvez porque ainda não tenha tido tempo para ler o João César das Neves ou a Patrícia Lança, de equiparar a homossexualidade à pedofilia. Fica para a próxima.

17 janeiro, 2008

Guantánamo é onde o Bush quiser

Os Estados Unidos da América drogaram, entre 2003 e 2007, vários imigrantes para facilitar o processo de expulsão do país. Entre as violentas substâncias utilizadas encontra-se um anti-psicótico, Haldol, utilizado no combate à esquizofrenia. Os serviços de imigração reconheceram que 56 deportados receberam remédios psicotrópicos durante um período de 7 meses, entre 2006 e 2007, apesar de não possuírem nenhum registo histórico de problemas mentais. Vários dos deportados sujeitos a esse tratamento desumano e ilegal colocaram os EUA em tribunal, tendo o assunto já chegado ao Senado dos EUA.

O silêncio é a alma do negócio

Sem direcção e sem médicos, o Hospital de Faro vive dias complicados, sendo comuns as imagens de macas nos corredores com idosos desamparados. Luís Filipe Menezes entendeu ir visitar o Hospital para se inteirar da situação, mas recusou pronunciar-se sobre o que viu. "Estamos numa zona muito importante para a economia portuguesa e se der ênfase aos problemas estou a contribuir para que os que são contra o Turismo do Algarve façam campanha contra ele". Ora, bem visto. Os inimigos do Algarve são poderosos e estão à espreita de todos os deslizes. Ao pé de Menezes, e das suas teorias da conspiração, o mundo do futebol tem um discurso elaborado e intelectualmente estimulante. Desgraçados daqueles que tenham o azar de viver numa zona turística. Não há bombeiros, centro de saúde ou escolas? Azar. O maior partido da oposição está calado porque isso pode prejudicar o negócio.

16 janeiro, 2008

O homem da tripla

O BCP ficou com a gerência da Caixa. Santos Ferreira para aqui Miguel Cadilhe para ali, a imprensa de hoje confere uma ampla cobertura mediática à luta pela liderança no Millennium BCP. Mas outro nome escapa ao escrutínio e passa quase incógnito: Cunha e Vaz. O mesmo homem que faz a comunicação de Menezes, e coordenava o ataque do PSD à “Opa socialista” de Santos Ferreira, fez a assessoria de Santos Ferreira para garantir o sucesso da “Opa socialista” ao BCP. Pelo meio ainda tinha tempo e energia para aconselhar o cessante Conselho de Administração do BCP. Uma verdadeira tripla. Mas há que reconhecer as vantagens de um esquema destes. Assim nunca há fugas de informação. Ela circula sempre entre a mesma gente.

Arranja-lhes um emprego...


Depois de andar a ver se arranjava um emprego a Cadilhe na Caixa Geral de Depósitos, Luís Filipe Menezes propôs ontem a entrada de dois comentadores para a RTP e para a Sic Notícias. Numa clara demonstração da pobreza de espírito que o anima, dividiu a coisa entre "ortodoxos" e "independentes". Parece que o PSD tem poucos dos primeiros a falar na televisão. Uma injustiça que, como recorda Menezes, tem deixado esse génio político que dá pelo nome de Ribau Esteves fora dos ecrãs televisivos. Para o homem que se propõe acabar em seis meses com o peso do Estado na sociedade, Menezes parece muito atento e preocupado com tudo o que lhe escapa ao controlo. Aguarda-se com expectativa o dia em que Menezes aparecerá a propor os nomes para a administração da Sony Portugal, Autoeuropa, Ordem dos Médicos ou o novo treinador para o Sporting. Já nada espanta neste "novo" PSD.

Serviço público


As coisas que se descobrem na apresentação anual da Apple! Extraordinária e viciante canção, usada no anúncio do fantástico Macbook air. Para quem quiser conhecer mais sobre a autora da música, aqui fica o site de Yael Naim.

15 janeiro, 2008

O fascismo instrumental

Numa das suas últimas crónicas no Público, o Rui Tavares chamou a atenção para os manifestos exageros retóricos de Vasco Pulido Valente e Pacheco Pereira a propósito da lei do tabaco. “Vasco Pulido Valente ameaçava aniquilar com o verbo quem se permitisse chamar “fascismo” à ditadura de Salazar — uma ditadura que censurava, prendia e torturava os seus opositores. Pacheco Pereira indignou-se por ter havido quem chamasse “fascista” a George W. Bush, — isto por causa de Guantánamo, do Patriot Act e da Guerra do Iraque. E eu levei-os a sério. E agora descubro que estes mesmos historiadores não tiveram dúvidas em classificar como “fascista” a nova lei do tabaco. Não lhe chamaram exagerada, mal concebida ou uma série de coisas que, concebivelmente, se poderiam dizer acerca de uma lei que transforma espaços que eram por regra de fumadores em espaços de não-fumadores. Não: fascista é que é.”

Precisamente porque vindo de quem, ao longo de décadas, tem vindo a exigir um rigor exegético na utilização do termo “fascista”, o caso de Pacheco Pereira é merecedor de uma atenção especial. Este prolixo autor de um blogue perseguido por meia blogosfera, tem-se empenhado na reabilitação de Mário Machado. “Tudo na longa manutenção de prisão preventiva de Mário Machado é estranho e aponta para razões puramente políticas, o que é inadmissível numa democracia”. Onde Pacheco Pereira encontra a perseguição por delito de opinião (de um movimento que se junta para cantar os parabéns a Rudolf Hess com protecção policial), o Ministério Público viu dezenas de crimes, entre os quais a posse ilegal de armas, agressões, ameaças de morte, insultos e sequestro. Mário Machado, e os seus amigos que se entretêm a profanar cemitérios judeus, é o mesmo que escreve cartas da prisão a ameaçar a vida de magistrados, coisa que se presume séria de quem já se foi preso e condenado pelo homicídio de uma pessoa que cometeu o “crime” de ter nascido com a cor “errada”. Mas, também nessa altura, Pacheco Pereira não via razões para falarmos de "fascismo". No dia 17 de Junho de 1995, poucos dias depois do homicídio de Alcino Monteiro por Mário Machado e companhia, era isto que Pacheco Pereira dizia no Expresso:

“O ridículo de falar na “noite de cristal” ou no “terror fascista” à solta em Lisboa só não salta aos olhos de toda a gente porque o nosso discurso estão tão degradado que as palavras já não têm o significado que pretendem ter”.

“Se pensam que há alguma coisa de pedagógico nesta histeria colectiva “anti-racista” e que com ela se previne qualquer outro crime, estão bem enganados: o feito será precisamente o contrário.”


“Ao se perder a medida perde-se a razão e entra-se na história do rapaz e do lobo. Ao se destruir o valor das palavras falando de “terror fascista” para com stampede racista de 50 guetos, está-se a gritar ao lobo antes de ele vir.”


"No dia em que de um Tribunal saírem para passar uns anos na cadeia os assassinos do jovem negro, a verdadeira pedagogia anti-rascista far-se-à.”


Como em quase tudo o que diz e escreve, Pacheco Pereira tem uma visão instrumental da palavra "fascismo". A sua definição, e aceitabilidade, pertence-lhe. A lei é fascista e quem não a critica nestes termos é porque convive bem com o ambiente de conformismo generalizado. Os fascistas, que matam e sequestram, são presos políticos. Pacheco Pereira tem razão numa coisa. O discurso está tão degradado que as palavras já não têm significado. E o seu discurso é apenas mais um exemplo disso mesmo.

Ontem, no Prós e Contras, estavam todos de acordo sobre a excelência do LNEC

A passagem pedonal da estação de metropolitano do Terreiro do Paço está a apresentar fissuras, apenas um mês depois de ter sido inaugurada. As primeiras infiltrações surgiram depois da chuva que caiu nos últimos dias em Lisboa.Segundo os técnicos, esta zona, que ainda está em obras, está com problemas já que tem uma má impermeabilização, uma vez que esta só pode ser feita em tempo seco e não com chuva. 17 anos e 300 milhões de euros depois, as obras monitorizadas e fiscalizadas pelo LNEC continuam a meter água. Também, quem é que se ia lembrar que uma estação parcialmente debaixo do rio iria precisar de ser impermeabilizada?

14 janeiro, 2008

E que tal um aeroporto em Moscovo?

E, de repente, o Prós e Contras sobre o aeroporto tornou-se num concurso entre Zita Seabra e Mário Lino para ver quem é que saiu mais cedo do PCP.

Lei que é lei, só é para cumprir quando há jornalistas por perto

13 janeiro, 2008

Não há almoços grátis (II)

Uma conhecida anedota soviética contava que, quando Gorbachev convidou Reagan para visitar o seu país, o recebeu com a mais faustosa recepção vista em Moscovo. Impressionado com o luxo e hospitalidade, Reagan perguntou onde tinham os soviéticos ido buscar tanto dinheiro, ao que Gorbachev apontou para a janela e perguntou ao presidente dos EUA se estava a ver o opulência da ponte que se encontrava à sua frente. “Não, não estou a ver ponte nenhuma”, respondeu um estupefacto Reagan. “Pois, aí está, gastámos o dinheiro na sua visita”.

O acordo do Estado com a Lusoponte é semelhante. Quando visitamos a Expo e olhamos para o Tejo só vislumbramos uma ponte onde os portugueses vão pagar três ou quatro. Que o Governo venha agora tentar sossegar os contribuintes, dizendo que a esmagadora maioria do investimento no aeroporto e TGV serão efectuados por consórcios privados seguindo um modelo semelhante ao seguido na ponte Vasco da Gama (Build, Operate Transfer) deveria ser suficiente para os portugueses começarem a remexer na carteira.

A ponte Vasco da Gama custou 897 milhões de euros, a maioria dos quais suportados por capitais privados. Em contrapartida, a Lusoponte recebeu mais de 550 milhões de subsídios do Estado (fonte, Público de ontem). Ficou com a exclusividade da concessão das pontes no Tejo a sul de Vila Franca de Xira, o prazo de concessão foi dilatado de 28 para 35 anos, e, cereja em cima do bolo, foi-lhe entregue a super lucrativa ponte 25 de Abril - na qual não gastou 1 cêntimo.

O Tribunal de Contas arrassou o acordo, valendo a pena lembrar esta passagem: "Considerando apenas o envolvimento financeiro do Estado concedente, designadamente a sua comparticipação inicial, as compensações directas e as perdas de receita de IVA e do Fee da manutenção da Ponte 25 de abril, os montantes envolvidos deverem ascender, a preços correntes, a cerca de 217 milhões de contos. Neste contexto, afigura-se bem longe de constituir qualquer ficção sustentar a ideia de que o Estado concedente tem sido o mais importante e decisivo financiador da concessão, sem a explorar. (página 84 do relatório). E isto foi em 2001...

Como se não fosse suficiente, o Estado prepara-se para renegociar novamente o contrato, atribuindo à Lusoponte a concessão da travessia entre Chelas e Barreiro. O mesmo traçado que, vai para quinze anos, merecia um largo consenso técnico mas que foi chumbado pelo então ministro das Obras Públicas: "Construir uma ponte entre Chelas e o Barreiro é trazer mais confusão para o centro de Lisboa", dizia então Ferreira do Amaral. Agora, o mesmo Ferreira do Amaral, que era contra a ligação Chelas-Barreiro, prepara-se para exigir do Estado o cumprimento do ruinoso acordo que assinou, acrescentando mais um episódio à história de sucesso do consórcio mais sortudo (e com melhores contactos) de Portugal.

Parece que os financiadores do estudo da CIP dizem ter medo das represálias do Estado. O único nome que se conhece é o da Lusoponte. Pobres e mal agradecidos, é o que é. Vivem à custa dos dinheiros públicos que, depois, passam a vida a vilipendiar. O empreendorismo nacional é assim. São todos liberais quando peregrinam até ao Convento do Beato, mas, quando fazem negócios, só se lembram do liberalismo depois do Estado lhes garantir o monopólio e assumir os riscos. O Governo fala agora em 16 000 milhões de euros em obras públicas nos próximos anos. Vai ser um festim. Pago por todos nós. Três ou quatro vezes, que é como se faz negócios no nosso país com o dinheiro dos outros.

Não há almoços grátis

Começa a faltar a paciência para tanto encómio, elogio, louvor e bajulação ao estudo da CIP sobre Alcochete. O momento alto foi atingido no Expresso da Meia-Noite, onde o responsável pelo estudo afirmava, perante a anuência geral, que mais importante que o aeroporto era a vitória da democracia assumida por um “conjunto de cidadãos” cansados de tanta incompetência técnica. E quem são esses cidadãos? Não se sabe nem se pode dizer, responde o autor do estudo, alegando o medo das represálias do Governo. Desculpem lá não acompanhar a comoção geral, que parece ter assentado arraiais precisamente naqueles que passam todo o ano a indicar-nos que "não há almoços grátis", mas esta treta não servia nem para uma pergunta do "Sabe mais do que um miúdo de 10 anos?". Represálias? Do Governo que mudou de posição para escolher a proposta sugerida pelo "grupo de cidadãos"? Que o único nome conhecido, o da Lusoponte, seja um dos principais interessados no projecto, talvez tenha alguma coisa a ver com o caso. Agora, as represálias?

12 janeiro, 2008

Sarkozy Consulting

Os ministros franceses vão passar a ser avaliados por uma empresa de consultadoria. A novidade, anunciada por Sarkozy, já tem até os critérios definidos. Segundo a Visão desta semana, a ministra do ensino superior será responsabilizada pela taxa de insucesso nas faculdades, a da cultura em função do número de espectadores dos filmes franceses e o ministro do Interior será recompensado pelo número de imigrantes ilegais que consiga expulsar (!!). Até ver, é a última novidade nesta senha liberal que insiste em quantificar todos os aspectos da vida social e política como se estes pudessem ser avaliados e escrutinados seguindo a mesma metodologia utilizada para contabilizar o número de computadores que saem de uma linha de montagem. Certamente uma coincidência, claro, mas a consultora foi fundada por alguns dos membros da elite política francesa e encontra-se em dificuldades financeiras. Está certo. Nada como pedir a uma empresa que não se consegue gerir a si própria para avaliar o desempenho de um governo. Isto promete.

E, agora, quem é que encerra a ASAE?

A mesma ASAE que esta semana impediu uma mercearia de Faro de comemorar o seu centenário de portas abertas (porque, horror dos horrores, não dispunha de um tecto falso e os móveis não estavam pintados na cor original), tem os extintores nas suas instalações fora do prazo há mais de cinco meses. Ainda segundo o Expresso, a ASAE pediu colaboração aos serviços secretos e forças especiais da polícia norte-americana para formar os seus agentes. Há muito que os portugueses desconfiavam, mas até agora tinha sempre faltado a coragem para atacar de frente um dos principais flagelos do país: o financiamento das redes terroristas internacionais pelos donos dos cafés, mercearias e restaurantes nacionais. Quem sabe, com a intrépida ajuda da ASAE, ainda acabam em Guantanamo.

11 janeiro, 2008

Sem comentários

Manda quem pode, obedece quem deve

Um dos argumentos mais usados pelos defensores da ratificação parlamentar é que o Tratado de Lisboa e as questões europeias são demasiado complexas para permitir uma consulta popular esclarecida e esclarecedora. O João Villalobos foi um dos últimos a juntar-se ao clube, galhardamente fundado por Vital Moreira, e pergunta ”quantos dos nossos leitores conhecem as implicações que terá a nova Directiva de Crédito ao Consumo, para mencionar só um exemplo?” Poucos, certamente. Mas, como leitor do Corta-Fitas, aproveito para responder ao João com outra pergunta. Quantos portugueses é que conseguem perceber as diferentes propostas apresentadas nas eleições legislativas sobre a sustentabilidade da segurança social, regimes fiscais especiais, a Lei da Segurança Interna, Código Processo Penal ou mesmo as consequências do processo de Bolonha? E, de resto, só vota quem conhece e leu os programas apresentados pelos diversos partidos?

Se as sociedades actuais são complexas e alicerçadas num sem número de tratados, leis, normas e regulamentos de que, na sua esmagadora maioria, os cidadãos alegremente desconhecem o significado, o que fazer? Regressamos ao voto censitário, ou entregamos o nosso futuro apenas a quem conhece os meandros de Bruxelas e trata por tu os governantes e corpo diplomático? Podemos continuar nesse caminho, e confiar na apatia dos cidadãos que vão "vivendo a sua vida e perguntando se há palitos", continuando a fugir a sete pés do escrutínio popular da construção europeia. "A Europa dos cidadãos tem medo dos cidadãos", dizia alguém no Blafémias, num feliz resumo de como os 27 governos europeus têm lidado com a ratificação do Tratado. A tendência, aliás, é para que esse medo e seja crescente, pois não é possível continuar a esconder a Europa dos europeus e continuar à espera que decisões destas não deixem nódoa. Basta ver o que se passou em Portugal. Na tomada de posse do Governo, José Sócrates defendia o referendo invocando que “devemos confiar na capacidade política dos portugueses”. Agora, pouco mais de dois anos passados, invoca a “ética da responsabilidade” para esconder o Tratado do voto popular. Uma formulação simpática para dizer que somos todos responsáveis pelo futuro do Tratado e que, como não é certo que holandeses, franceses ou ingleses o aprovem, o melhor mesmo é deixarmos a consulta referendária na gaveta para não darmos ideias a ninguém. Referendo, está visto, “jamé”.

E a Portela?

O ministro Mário Lino, com cara de poucos amigos, junto dos gémeos Sócrates

O aeroporto vai ser em Alcochete. Depois do volte-face no pagamento às prestações do retroactivo das pensões, é a segunda vez que o Governo cede no espaço de dois dias. Só que, ao contrário da primeira, o Governo envolveu-se dos pés à cabeça na defesa da Ota. Era um “compromisso pessoal” de Mário Lino, ministro cujos acalorados argumentos entraram instantaneamente para o anedotário nacional. O Governo recuou e fica-lhe bem. Que o ministro permaneça compreende-se pior.

Mesmo cedendo na localização do aeroporto, o governo parece insistir no desmantelamento da Portela. Ontem, nunca falou na complementaridade das duas infra-estruturas. A Portela foi a carta ausente do baralho. Não se compreende. Fazia sentido complementar os dois aeroportos. Fica mais barato, permite uma construção faseada do novo e uma maior capacidade para, articulando os dois aeroportos, ir respondendo às alterações nos fluxos e a novos comportamentos turísticos. A tentação de construir uma gigantesca cidade aeroportuária e abdicar da centralidade e centenas de milhões de euros investidos na Portela é grande. Não há governo que não trema de contentamento perante a hipótese de associar o seu consulado a uma obra emblemática. Até agora, Sócrates só tem diminuído as pensões e fechado centros de saúde. Obra para encher o olho e impressionar os eleitores, nada. Sócrates pode estar de relações cortadas com Alberto João Jardim, mas sabe tão bem como este que é de inaugurações que o “meu povo gosta" Esta inacção construtora é que não pode continuar. "Jamé, Jamé".

PS:
Começam a faltar argumentos para classificar os despropósitos diários de Luís Filipe Menezes. A conferência de imprensa que ontem deu para dizer que o Governo "muda frequentemente de opinião, e que mostra convicções pouco profundas”, andando a “reboque de posições tomadas apropriadamente pelo PSD em Outubro, quanto ao referendo, e em relação à OTA, nas últimas semanas” foi patética. As mudanças de posição do Governo correspondem, sem tirar nem pôr, às do PSD. Por isso a referência às últimas semanas. É que, para ser justo, se o Governo andou a reboque de alguém foi de Marques Mendes. E Menezes andou a reboque de toda a gente, tentando fazer esquecer os dois anos em que assinou artigos a defender tudo o que Sócrates dizia, da Ota ao encerramento das urgências. O boneco do Contra-Informação de Menezes não lhe faz justiça. O original é muito mais engraçado.

10 janeiro, 2008

"Jamais"

Business as usual

O PSD foi o primeiro partido político português a assinar um contrato com uma agência de comunicação, pagando 30 mil euros por mês à Cunha e Vaz para esta centralizar a sua imagem, comunicação e discurso.

Há um mês que Luís Filipe Menezes critica a OPA socialista ao BCP, denunciando o que diz serem as diligências do Governo para impor Santos Ferreira à frente do maior banco privado nacional.

Santos Ferreira contratou a agência de Cunha e Vaz para assessorar a sua lista na corrida à presidência do BCP. Ou seja, a mesma agência de comunicação que coordena com Luís Filipe Menezes o discurso sobre a “OPA socialista ao BCP”, está a assessorar a “OPA socialista ao BCP”.

09 janeiro, 2008

Os dois tratados são quase iguais? "É a minha opinião"


"O PS tinha um compromisso com o Tratado Constitucional. Agora é o Tratado de Lisboa, que não existia na altura. Não tem nada a ver uma coisa com a outra. As circunstâncias alteraram-se completamente. É um tratado diferente", disse José Sócrates no final da Comissão Política Nacional do PS.

É só dar tempo ao tempo.

Já está a tomar forma o coro de vozes a defender nos jornais e na televisão a decisão governamental de não referendar o tratado de Lisboa, apesar de ser uma promessa que consta no programa de Governo e ter sido a posição assumida pelo actual primeiro-ministro na campanha eleitoral. Cá estaremos para ver quantos dias vão passar até que, a propósito de um qualquer episódio, as mesmas autorizadas vozes apareçam nos jornais e na televisão a referir o crescente afastamento entre a população e o sistema político, a falta de confiança nos partidos ou a reduzida participação eleitoral. Como se sabe o incumprimento de promessas não tem nada a ver com o descrédito da política e é um produto do acaso.

Razão pela qual sempre defendi, até há 3 meses, a Ota e o TGV

"Não se pode ao mesmo tempo construir aeroportos como o da Ota, ter investimentos megalómanos como o TGV e aumentar pensões". Luís Filipe Menezes, 8 Janeiro 2008.

Prioridades

Durão Barroso trocou o compromisso que tinha assumido com os cidadãos portugueses no dia que lhe ofereceram um lugar na União Europeia.

José Sócrates trocou o compromisso eleitoral que tinha assumido com os cidadãos portugueses, pelo compromisso que acertou com os restantes líderes europeus para não referendar o Tratado de Lisboa.

08 janeiro, 2008

Cêntimo a cêntimo se faz a "justiça social" do Governo

O secretário de Estado da Segurança Social, Pedro Marques, garantiu que a diluição do retroactivo de Dezembro das pensões em prestações tão generosas como 68 cêntimos, “ao ser distribuído por todo o ano, será incorporado na pensão e vai estar na base de um aumento um pouco maior da pensão em 2009”. Infelizmente, o jornalista não lhe perguntou o valor do acréscimo causado por esses 68 cêntimos. É pena. Perdeu-se um momento televisivo dificilmente repetível de ver um governante a defender a justiça social de um aumento de 1 cêntimo.

Vê-se mesmo que nunca conheceram o Sampaio


Jornais, televisões e blogues americanos discutem até à exaustão a comoção de Hillary Clinton, apresentada como um raro momento de exposição pessoal na sua campanha. O vídeo já está no top dos mais vistos no YouTube e arrisca-se a ser um caso de estudo sobre as espeficidades regionais na era da uniformização e globalização comunicacional. Para um português, que se habituou a ver o ex-presidente da República a chorar desalmadamente por causa da erosão da orla costeira ou de uma bola à trave num jogo da 1.ª Liga, o vídeo é uma desilusão completa. Chorar? Aquilo? Sabem lá do que é que falam.

Contente com quê?

No auge do autismo cavaquista, o então primeiro-ministro orgulhava-se de despachar os jornais em cinco minutos. Sócrates deve ir pelo mesmo caminho, pois só assim se pode compreender a sua afirmação de que "2008 será melhor que 2007, como 2007 já foi melhor do que 2006". 2007 foi um bom ano? Um dia antes das janeiras que cantaram para um animado primeiro-ministro, o Público indicava que a "situação financeira das famílias [está] tão má como no auge da crise ", um dia depois o Eurostat fez saber que Portugal foi um dos dois países europeus em que o desemprego subiu em 2007. 2008 será ainda melhor, garante José Sócrates, tentando esquecer-se de que o petróleo está nos 100 dólares, da crise financeira à escala mundial e que a economia americana se encontra em retração. A vida não melhora se nos esquecermos das dificuldades, o ano não corre melhor por não nos lembrarmos dos problemas.

Apanhando a onda, o ministro das finanças diz que a economia está "robusta" e que o Governo "não vai pedir mais sacríficios aos portugueses". Pois. Ainda hoje, o Correio da Manhã dá conta de que o Governo dividiu o retroactivo de Dezembro das pensões pelos ano de 2008. Ou seja, numa pensão média de 400 euros, que tem um aumento de 9,6 euros mensais, o pensionista não está a receber este valor este mês, mas sim 68 cêntimos repartidos pelos 14 meses. 68 cêntimos. Sempre dá para beber mais um café por mês. Razão tem o ministro das finanças. Acabaram-se os sacrifícios. Agora é só a normalidade da governação. O que, no seu caso, não é grande razão para alívio.

Imigrantes e emigrantes


No preciso momento em que alguns candidatos republicanos entram numa campanha para ver quem apresenta o discurso mais duro sobre a imigração, um insurgente foi buscar uma fantástica canção de Bruce Springsteen sobre os imigrantes. Como diz o Pedro Sette Câmara, elogiando o
cosmopolistismo que só uma sociedade aberta aos imigrantes permite, "o verdadeiro rock irlandês vem de New Jersey". Aqui em cima, fica a visão do outro lado, a de quem arrisca tudo para atravessar oceanos e continentes à procura de condições dignas de trabalho e de vida. Pelo "verdadeiro rock irlandês": os Pogues no final da década de 80.

07 janeiro, 2008

Ler os blogues

A Sara Figueiredo e a Andreia Brites andam às voltas com os livros e a literatura no espaço acolhedor do Cadeirão Voltaire. Vale a pena também passar pelo blogue do Sérgio Lavos, leitura regular na faculdade, agora reencontrado em alguns dos melhores auto-retratos da blogosfera portuguesa.

Se o polícia viu a casa ser assaltada, fechou os olhos, e continuou a ganhar 20 mil euros por mês, desculpe lá, ó sô ministro, mas vale a pena


“Quando uma casa é assaltada não vale a pena corremos atrás do polícia, acho que devemos é correr atrás do ladrão”. Teixeira dos Santos, tentando safar Vitor Constâncio da negligência (termo simpático) com que tratou o caso BCP em 2004, mas também tentando safar o ex-presidente da CMVM, o próprio Teixeira dos Santos, da negligência (termo simpático) com que tratou o caso BCP em 2004.

06 janeiro, 2008

O nojo

Segundo o Expresso, "Armando Vara vai manter o vínculo contratual com a Caixa Geral de Depósitos até conhecer o resultado das eleições para o conselho de administração do BCP". Mais vale um pássaro na mão do que dois a voar, deve ter pensado este diligente representante do carreirismo rosa. Não é que esta decisão altere substantivamente a questão de fundo, mas não deixa de ser esclarecedora sobre o carácter deste senhor. É inaceitável, e inconcebível, que três administradores da Caixa saltem, de uma assentada e sem nenhum período de nojo, com todos os planos estratégicos e de expansão do banco público para o seu rival directo. Vara vai estar a discutir o futuro estratégico do BCP, a apresentar propostas e soluções, enquanto continua a ser um trabalhador da Caixa (resta saber se continua a receber o ordenado) Inacreditável é que, como representante do único accionista da Caixa, o Governo ainda não tenha posto este senhor no único sítio que ele merece. A pouca vergonha tem limites. Ou devia ter.

05 janeiro, 2008

Grande coisa, o BCP paga as contas todas aos amigos

F for Fake

As terras geladas de Anadia

O 31 da Armada e o maradona envolveram-se numa polémica a propósito do encerramento dos centros de saúde. Diz o Pedro Marques Lopes que conduz à desertificação do interior e que “sem a ocupação do território a soberania sobre este deixa de ter significado prático”, responde o maradona que “a soberania exerce-se não com pessoas mas com a aplicação das leis”. É uma boa resposta, infelizmente posta em causa pelo encerramento de tribunais e postos de GNR no interior, mas o argumento definitivo ainda estava para aparecer. Diz o maradona que, se no Canadá e na Suécia é possível fazermos milhares de quilómetros só encontrando renas* pelo caminho e sem vislumbrar vivalma e centro de saúde que se preze, porque razão não podemos fazer o mesmo no nosso país? Como é um rapaz modesto ficou-se por aqui. É pena. Podia ter lembrado ao Pedro Marques Lopes o exemplo do Brasil. Alguém imagina os quilómetros que uma pessoa tem que percorrer na Amazónia para encontrar um tribunal, posto de polícia ou centro de saúde? E na Austrália, meus amigos, a mesma coisa. É possível andar-se dias só a ver kangurus ou cobras do deserto. Se funciona com esses países, porque não podemos nós encerrar centros de atendimento que se limitam a ter 40 mil consultas por ano? O Presidente da República é que tem razão. As populações não entendem a política da saúde. Tivesse o ministro o brilho retórico do maradona e estava a questão resolvida.

* Esperamos que, depois de fechados os centros de saúde, escolas, tribunais, estações de correio, ramais da CP e postos da GNR, o Governo providencie uma renas como na Suécia. Já que o interior do país pode ser encarado como uma reserva natural, sempre era bom termos uns animais engraçados para mostrarmos aos nossos filhos nas férias.

Faltam onze meses para o Governo decidir quem é que fica com o novo canal televisivo

Fazendo uma festa com essa extraordinária proeza, o Governo garante que o aumento das pensões permite a manutenção do poder de compra a 1,6 milhões de reformados que vivem com menos de 400 euros por mês. Mais papista que o Papa, o Jornal de Notícias diz que "0 poder de compra perdido durante 2007 será, assim, compensado para 2,4 milhões de reformados".

Cobardia é sair de uma guerra em que não se acredita

Agora que se tornou claro que foi o governo francês, liderado pelo novo ídolo das nossas direitas, que obrigou ao cancelamento do Dakar por causa de um comunicado de uma organização da Al Qaeda, estranho não encontrar nenhuma crítica à cobardia do namorado de Carla Bruni nos blogues que não pararam de zurzir na falta de coragem e no capitulacionismo de Zapatero perante os terroristas quando este retirou as tropas espanholas do Iraque. A coragem dos nossos guerreiros de sofá tem os seus dias. E as suas causas.

GPS killed the Dakar star

De repetente, e depois do cancelamento da edição deste ano, parece que metade do país acordou preocupado com o futuro do Dakar. Têm andado distraídos. O Dakar já estava morto há muitos anos e foi o GPS que acabou com ele. No dia em que as diferenças nas etapas de centenas de quilómetros no deserto deixaram de se medir em horas e em dezenas de minutos para passarem a ser decididas ao segundo, o Dakar foi perdendo interesse e seguidores. Perdeu a aura de aventura e de teste à resistência do indivíduo, já para não falar na incerteza competitiva até à etapa de consagração nas praias do Senegal. Passou a ser um rally. No deserto, é certo, mas até isso passa a ser secundário quando uma máquina nos aponta o caminho com a mesma precisão e certeza com que o faz nas ruas de Londres ou Berlim. Tornou-se uma prova igual a tantas outras e, portanto, periférica. Não foi por acaso que foi caindo aos trambolhões de Paris, Barcelona até chegar a Lisboa (que nem aparece no nome da prova...) e aos bolsos abertos do nosso governo e Santa Casa da Misericórdia.

04 janeiro, 2008

O espectáculo do ano já começou


Esperança e mudança. Fartos e cansados da política do medo seguida pelo sistema político de Washington durante a administração Bush, as palavras mais usadas por Obama no seu impressionante discurso de vitória no Iowa arriscam-se a ser o eixo da campanha presidencial norte americana. Não por acaso, Hillary e Giuliani, os dois candidatos mais conotados com o "sistema", foram os grandes derrotados de ontem. O problema de Hillary não foi tanto ter perdido para Obama, mas ter ficado atrás de John Edwards. Permite a este criar o momento que o legitima como um potencial candidato ganhador e que lhe permite continuar a recolher dinheiro para o manter na corrida. Ontem teve um excelente discurso, bem longe do fulgor retórico e oratório de Obama, mas provando que é o candidato mais à esquerda no campo democrata.
O João Rodrigues e o Nuno Teles já tinham chamado a atenção para as suas propostas - principalmente o plano de saúde e a retirada do Iraque - e para o apoio que tem recolhido entre os economistas de esquerda. Ontem voltou a falar de um dos temas que tem destacado nas últimas semana, criticando a "corporate greed" que tem conduzido ao aumento da desigualdade social nos EUA. Edwards pode ser a surpresa no campo democrata, afirmando-se definitivamente como um nome a ter em conta. Ainda bem. Obama parece cada vez mais ser aquilo que tanto critica nas suas intervenções, dizendo aquilo que as pessoas (e os seus financiadores) querem ouvir.

PS: Com um correspondente especial nos EUA a tempo inteiro, e um intermitentente entre Angola e Chicago, o Zero de Conduta vai acompanhar as eleições com especial atenção. Na barra da direita, já se pode encontrar o link para todos os textos sobre a Indecisão 2008. Serão muitos.

O tal canal


Portugal tem o mercado publicitário mais distorcido da Europa. Como em nenhum outro país, os anunciantes concentram o seu dinheiro na televisão (70% do volume de anúncios) e só não o fazem de uma forma mais intensa porque existem limitações legais que o impedem. A abertura do concurso para mais um canal de televisão em sinal aberto vai reforçar essa tendência, tornando ainda mais complicada a já debilitada situação financeira da maioria dos títulos da imprensa escrita. Uma comunicação social sem recursos e em permanente guerra para captar audiências e anunciantes não deveria interessar a ninguém, jornalistas incluídos. Conduz à degradação da informação. Ao fim do jornalismo de investigação. À diluição da autonomia dos seus profissionais. À diminuição da independência face ao poder politico e económico. À tabloidização de toda a imprensa, incluindo a de referência.

Abrir um canal televisivo em sinal aberto não é o mesmo que abrir uma padaria ou fábrica de curtumes. Tem profundas implicações no funcionamento do sistema democrático. A revolução não será televisionada, já diz a famosa canção dos anos 70, mas a verdade é que a democracia passa cada vez mais pela televisão. Para o bem e para o mal, a comunicação social é o principal mediador entre o sistema politico e a população. Não é por acaso que é nos liberais EUA que encontramos a legislação que mais entraves coloca à concentração da comunicação social. Por cá, contudo, o argumento liberal é que este licenciamento é um intrusão do Estado no normal funcionamento do mercado que deveria ter o direito de criar as estações em sinal aberto que entendesse. Dizem-no como se o licenciamento público das televisões generalistas fosse uma originalidade nacional e não ocorresse o mesmo em todos os outros países. Ao contrário do que argumentam, uma comunicação social sem meios de subsistência, e com profissionais cada vez mais precarizados, é que se torna refém de todo o tipo de interesses. A começar pelos mais fortes. Os do governo e os dos grandes grupos económicos.

Forreta mas contente


Perante as críticas da oposição sobre os miseráveis aumentos das pensões, o Governo respondeu com um comunicado onde garante que 90% dos pensionistas mantêm o poder de compra. Se a taxa de inflação for a que calcula Bruxelas (2,7%) nem isso é verdade, mas a reacção do Governo é exemplar porque nos revela que:

  1. 90% dos pensionistas têm reformas abaixo dos 611 euros.
  2. O Governo desistiu de combater a pobreza, renunciando a recuperar o poder de compra das centenas de milhar de idosos que vivem com menos de 300 euros por mês.
  3. A manutenção do inexistente poder de compra dos mais pobres dos mais pobres é quanto basta ao Governo para se congratular com os aumentos concedidos a 1,6 milhões de pessoas que recebem menos do que o salário mínimo nacional.

Depois de ter encerrado 2400, o Governo está preocupado com o nome das escolas

Vale a pena ler esta entrada do Daniel Oliveira sobre a absurda hiperprodução legislativa que leva o governo a criar um decreto lei em que se definem as regras para dar nomes às escolas.

03 janeiro, 2008

A clarificação

fotografia SOL
O inspector geral da ASAE diz que só fumou no restaurante do casino porque, no seu entender, existe um conflito entre a lei do tabaco e a do jogo que precisa ser clarificado. Enquanto a tal clarificaçãozinha não aparece, o responsável máximo pela fiscalização do cumprimento da lei do tabaco vai regendo o seu comportamento pelo disposto na lei do jogo. Estamos conversados.

2007 foi também o ano em que Portugal mudou de cor neste mapa

Enquadramento legal da Interrupção Voluntária da Gravidez no mundo. Clique no gráfico para aumentar.

ainda em 2007

Na Harper:

"Mil oitocentos e noventa e nove soldados dos EUA e 18,610 civis iraquianos foram mortos na Guerra do Iraque. Oitenta por cento dos Iraquianos declararam “ataques perto” e estimou-se que 90% dos artistas dos artistas do Iraque tinham fugido do país ou sido mortos. A Halliburton anunciou 13 mil novos postos de trabalho, e o Presidente George W. Bush foi submetido a uma colonoscopia. Na Venezuela, o Presidente Hugo Chavez abraçou o Presidente Mahmoud Ahmadinejad do Irão. “Bem-vindo, combatente de causas justas”, disse Chavez. O Senador Barack Obama apareceu de tronco nú no especial “Beach Babes” da People’s Magazine. A presidente da Casa dos Representantes Nancy Pelosi proibiu o fumo no salão do Capitólio, e a Senadora Hillary Clinton disse “nós queremos continuar a ser capazes de exportar democracia, mas entregues em pacotes digeríveis.” O Viagra fez 15 anos. Fogos espalharam-se do Norte de Los Angeles ao sul de San Diego, e cientistas da Universidade de Nova Iorque apagavam experiências assustadoras da memória de ratos. O primeiro congressista Muçulmano foi jurado com o Corão que pertencera a Thomas Jefferson. Esperava-se que as vendas anuais da Taser International chegassem aos 90 milhões de dólares."

continua

02 janeiro, 2008

E agora, ainda vão continuar a incomodar com essa mania do referendo?

Perante as dificuldades de crescimento da nossa economia, perante a angústia daqueles que não têm emprego e a subsistência de bolsas de pobreza, devemos concentrar-nos no que é essencial para o nosso futuro comum, e não trazer para o debate aquilo que divide a sociedade portuguesa.

Esta frase resume o pensamento democrático de Cavaco Silva. Depois de nos ter garantido que “duas pessoas com a mesma informação e com a mesma boa-fé chegam necessariamente às mesmas conclusões”, Cavaco Silva volta a provar a sua evidente aversão à ideia de que a democracia se fortalece com o confronto de opiniões distintas. Bem pode apelar ao reforço do diálogo e à diminuição da crispação social. É tudo instrumental. E com regras bem certinhas. As da resignação democrática.

As novidades chegam sempre atrasadas à província


"A universalidade e gratuitidade deste tipo de serviços - saúde, educação e segurança social -, é exactamente aquilo que é insustentável. É a ideia do modelo social europeu. É completamente insustentável". Pacheco Pereira, balanço de 2007 para o Expresso.


Não deixa de ser curioso que a assumpção liberal de Pacheco Pereira ocorra precisamente quando, do outro lado do Atlântico (e no único país industrializado onde se quebrou o mito da universalidade e gratuitidade deste tipo de serviços), todos os candidatos presidenciais se esforçam para apresentar planos que, de uma forma ou de outra, garantam cuidados de saúde aos 46 milhões de cidadãos que não têm direito a qualquer assistência, pública ou privada. O fim da universalidade e gratuitidade deste tipo de serviços tem vítimas. E quando Pacheco Pereira diz que o modelo social europeu é insustentável, não deve ter perdido muito tempo para reparar que os EUA, despendendo percentualmente o dobro de qualquer outro país, têm piores indicadores de saúde e deixam um sétimo da sua população ao abandono. O mesmo na educação, onde os eleitores americanos têm sistematicamente rejeitado em referendo a introdução do cheque ensino, e, no único estado onde este se encontra em vigor, os custos públicos com a educação têm disparado descontroladamente.

Se é assim nos EUA, imagine-se as consequências sociais de colocar um ponto final na universalidade dos cuidados de saúde ou educação, num país com dois milhões de pobres e onde o Estado considera rica qualquer família que se governe com dois mil euros por mês. Insustentável é esta lógica liberal, assente na sistemática campanha contra os serviços sociais prestados pelo Estado, e que nos quer fazer crer que é inevitável o fim da universalidade das prestações sociais, porque sim. Insustentável, porque é uma violência social, e insustentável porque não tem nenhuma sustentação nos factos e nos números.

Leitura recomendada: The Free Market: A False Idol After All?, no New York Times.